Edição 219 - Brasília, 03 de fevereiro a 03 de março de 2019

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Crônica

A maior personagem de Clarice
Uma escritora e seus enigmas

Por Marcelo Torres

Foto: Divulgação

Clarice Lispector: seus muitos enigmas, da Ucrânia ao Brasil

Nada de Macabéa, aquela órfã de pai e mãe que Clarice fez sair do sertão alagoano para sofrer nas mãos de uma tia — e nas mãos do mundo — no Rio de Janeiro, lá onde viu chegar sua hora e acabou se apagando, se apagando feito uma estrela.

Esqueça aquela personagem que atendia pela sigla de GH — a da paixão, do vazio e da solidão. Após dispensar a empregada, GH foi limpar o quarto e lá encontrou uma barata; com nojo, esmagou o bicho na porta do armário e depois comeu a barata morta.

Não, também não é Joana, outra órfã, outra que vivia no mundo da lua, talvez lá perto do coração selvagem, como se fosse a própria Clarice. Joana era assim: escrevia versos, morria de medo de dormir sozinha e tinha dó das galinhas, porque estas não sabiam que iam morrer.

Essas personagens, as três, são as mais queridinhas do público. Pelo menos entre os fãs da autora, são as mais lembradas, as mais famosas, porque são as protagonistas dos livros mais comentados — mas não é nenhuma delas a personagem por excelência de Clarice.

Excelentíssimo senhor leitor, aquilo que aqui vou revelar talvez seja, aos olhos de Vossa Excelência, uma grande asneira, a coisa mais ridícula do mundo, um sacrilégio à obra de uma escritora sagrada — “como te atreves, ó reles e anônimo cronista?”.

Com todo o risco que corro, atrevo-me a dizer: a principal personagem de Clarice, aquela que recebeu mais menções diretas ao nome, não é um ser humano — não é uma pessoa, mas também não é uma barata, não é um relógio, não é um pedaço de vidro —, a personagem principal dela vem a ser um lugar.

Sim, senhor, um lugar — aquele que foi mais falado por ela.

Esse lugar não é o pequenino povoado de Chechelnik, na Ucrânia, onde a família, em fuga, parou para que ela fosse dada à luz. Lá, porém, Clarice jamais pisou os pés — como recém-nascida, naqueles dias em que a família fugia da perseguição aos judeus, ela ora estava no berço, ora nos braços do pai ou da mãe ou da irmã mais velha.

Esse lugar também não é a cidade de Maceió, onde morava uma tia, irmã da mãe. A família desembarcou na capital alagoana. Ali, todos mudaram os nomes: Pinkouss, o pai, virou Pedro; Mania, a mãe, passou a ser Marieta; Leia, a irmã mais velha, Elisa; Taina virou Tânia; e a mais nova, registrada Chaya, agora seria Clarice — a própria.

Foi em Maceió que Pedro, seu pai, começou a trabalhar, como sócio do concunhado, de nome Rabin, já um próspero comerciante de secos e molhados na capital alagoana. Mas logo-logo eles se desentenderam e com menos de três anos na cidade a família mudou-se para o Recife, onde ela, Clarice, viveu até seus doze, treze anos, antes de todos mudarem para o Rio.

Do Recife, em crônicas publicadas no Jornal do Brasil, ela se lembraria dos banhos de mar — “meu pai acreditava que todos os anos se devia fazer uma cura de banhos de mar” —, da agitação antes do carnaval na cidade, das rosas e pitangas roubadas em jardins e quintais vizinhos, da colega que não quis lhe emprestar um livro — aquela história do conto “Felicidade clandestina”.

Não, o lugar não é o Recife.

Clarice também morou em Belém do Pará, numa breve passagem, de janeiro a julho de 1944, meses após a publicação de Perto do coração selvagem e um ano após o casamento com Maury Gurgel Valente. O marido era diplomata e fora enviado pelo Itamaraty para trabalhar nas relações com países aliados, ali instalados por causa da guerra.

Ficaram hospedados num quarto do Central Hotel, entre a avenida hoje nomeada Presidente Vargas e a Praça da República, centro histórico da capital. Sem muito o que fazer na cidade, passava os dias a ler — Proust, Flaubert, Rilke, Mansfield — de modo que essas são suas lembranças da capital paraense.

Depois de Belém, transferiram-se para Nápoles, onde Maury seria vice-cônsul. O marido foi primeiro, ela seguiu em 19 de julho do Rio para Natal, no Rio Grande do Norte, onde passou 11 dias esperando ordens do governo para seguir viagem. Da capital potiguar foi para a Libéria, de lá para Bolama, na Guiné portuguesa, depois Dakar, no Senegal, antes de chegar a Lisboa, onde ficou uma semana. Depois partiu para Casablanca, no Marrocos, em seguida para Argel, na Argélia, até finalmente chegar à Itália, em 24 de agosto.

Nápoles foi outra estada curta, um ano e meio. Em carta ao amigo Lúcio Cardoso, ela disse: “Fui ver a lava do Vesúvio [...]. Depois de um ano ainda estava quente; é uma extensão enorme, negra, de vinte a trinta metros de altura; a gente anda sobre casas, igrejas, farmácias soterradas. A erupção foi em março do ano passado e quando chove sai fumaça ainda”.

Foi em Nápoles onde ela achou um cão abandonado na rua e o levou para criar, dando-lhe o nome de Dilermando (teria ela lembrado do homônimo amante da mulher de Euclides da Cunha?). No entanto, a cidade de que ela mais falou não foi Nápoles, de onde o casal se mudaria para a capital suíça.

“A noite de Berna tem o silêncio”, ela escreveu às irmãs. Para não ouvir o tal silêncio, ela escrevia, mas era em vão. Aos seus olhos, aos seus ouvidos, Berna era um túmulo. “Silêncio tão grande, montanhas tão altas que o desespero tem pudor”, disse. “Os ouvidos se afiam, a cabeça se inclina, o corpo todo escuta: nenhum rumor, nenhum galo”. Ela era “o único fantasma de uma noite em Berna” e seu coração tinha que “se apresentar diante do nada sozinho e bater alto nas trevas”.

Bem, a cidade sobre a qual Clarice tanto escreveu não foi a suíça Berna, nem a paraense Belém, nem a alagoana Maceió, nem a pernambucana Recife, assim como não foi Torquay, na Inglaterra, nem Washington, nos Estados Unidos — ela morou em todos esses lugares, sempre acompanhando o marido, mas não é de nenhum desses que aqui se trata.

O excelentíssimo senhor leitor talvez ache que essa cidade seja o Rio, o Rio e seus quarenta graus, a cidade-purgatório da beleza e do caos, o lugar onde a escritora mais viveu, e amou, e sofreu, e morreu, e onde está enterrada num cemitério israelita — mas que graça haveria se a cidade personagem, personagem principal, fosse logo aquela que todo mundo diz ser a cidade maravilhosa, tão alevantada em fama e glória? Graça nenhuma haveria.

A principal personagem de Clarice, vamos acabar logo com o mistério, é uma cidade onde, segundo suas palavras, estão as crateras da lua, uma cidade construída na linha do horizonte, com espaço calculado para as nuvens, uma cidade que, igualzinha a ela, Clarice, é beleza e espanto, é mistério e fascínio, é assombro e encanto, e mais um bocado de coisa que não está ao alcance de se entender.

A personagem principal é uma cidade-esfinge, enigmática, uma cidade que atende por uma graça de mulher — Brasília — esse nome feminino que vem a ser Brasil, em latim.

E todo o latim que Clarice tinha para gastar sobre uma cidade, ela colocou quase que por completo em Brasília, tendo citado este nome 269 vezes, em crônicas monumentais. Nenhuma cidade, portanto, foi tão citada, tão tratada e retratada, com todas as tintas, com tantas metáforas, como foi Brasília.

“Sou atraída aqui pelo que me assusta em mim”, este talvez fosse o motivo da sua identificação com a cidade. Contudo, para ela, “a alma aqui não faz sombra no chão”, porque “Brasília é mal-assombrada”. Ela disse também: “Se tirassem meu retrato em pé em Brasília, quando revelassem a fotografia só sairia a paisagem”.

Em uma de suas crônicas, a escritora disse que “Brasília é linda e é nua” e “tenho certeza que aqui é o meu lugar certo”. Mais: “Reconheço esta cidade no mais fundo de meu sonho”. “Mas que lugar para ser bonito”, “que beleza assustadora”, “nunca vi nada igual no mundo”.

Assim como Clarice, Brasília é um enigma, uma esfinge, uma pergunta ou, talvez, uma vírgula.

 

Marcelo Torres é jornalista e escritor.