Edição 218 - Brasília, 12 de agosto a 09 de setembro de 2018

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Ficção

Flipando em Paraty
Encontros e desencontros na feira literária

Por Cesar Carvalho

Dizer que estava puto da vida era pouco. Estava era raivoso, encolerizado, irado, furioso, enquizilado, perturbado. Mas, também, pudera! Dali a dois dias a ordem de despejo seria cumprida e eu iria para a rua. Estava sem um puto. A luz elétrica não foi cortada porque um amigo me ensinou a fazer uma gambiarra. Só espero que o vizinho não perceba. No armário da cozinha alguns cereais davam para pelo menos um mês. Na geladeira, só algumas batatas, um cará e duas cenouras. Acabariam logo. Mas sobrariam os cereais. O bujão de gás, usado com parcimônia, duraria um bom tempo. Mesmo sem dinheiro, conseguiria sobreviver uns trinta, quarenta dias sem passar fome, não fosse essa ordem de despejo. Eles não terão muito o que colocar pra fora, mas, e minha biblioteca? Tenho pelo menos uns dois mil livros, será que vão queimá-los ou apenas jogá-los na rua? Bem, qual a diferença? E para onde eu iria? Se meus amigos, que já não são muitos, recusaram-se a emprestar-me dinheiro, imagine então hospedar-me? Nem por sombra!

O pequeno e surrado tapete da sala já estava marcado pelos meus sapatos de tanto que andava em círculos. A cabeça fervilhava, buscando meios para sair daquela desastrosa situação financeira. Revi todos os meus esforços para arrumar trabalho. Fiz tudo como manda o figurino. Mandei e-mails, telefonei, visitei tudo quanto foi empresa oferecendo-me como redator. Vagas eram inexistentes. E as desculpas variavam. Uma era a necessidade de enxugar quadros, outra era a implementação da nova lei que flexibilizou o trabalho, tirou os direitos adquiridos do trabalhador e o reduziu quase à condição de escravo. Grande parte dessas empresas chegaram a mandar embora seus empregados para recontratá-los pela nova lei. Numa delas tiveram a cara de pau de me propor trabalho voluntário, por três meses, para depois, se aprovado, ser contratado. Declinei do convite. Só de lembrar fico irritado. Preciso sentar. Descansar. Parar de pensar. Não vejo saída mesmo. Sentar onde? O sofá, vendi há duas semanas. A cama, a mesa da cozinha, cadeiras, panelas, tudo foi vendido. Sobraram duas panelas velhas, os copos de requeijão que ninguém compra, claro, e um banquinho. Se pelo menos tivesse a TV, me distrairia um pouco. Mas também foi vendida. Sobraram só os livros que agora tinham destino incerto, mas triste: rua ou fogueira? Alguns amigos aconselharam-me a vendê-los. Tentei, mas as ofertas eram ridículas. Não valia a pena, preferi continuar com eles. Em algum momento aquela fase ruim acabaria e os livros, pelo menos os livros, ficariam. O resto compraria de novo. Estava cansado, precisava sentar. Fui buscar o banquinho, que estava na cozinha, quando o celular sinalizou a chegada de uma mensagem. Quem poderia ser? Não participo de grupos de conversa, os amigos se afastaram depois que comecei a pedir dinheiro emprestado; namorada, estava sem nenhuma. A última, a Helena, me abandonou depois que a fiz pagar a diária do motel. Ela pagou, mas também sumiu. Peguei o banquinho e fui até a biblioteca. Sabia que estava lá, só não sabia onde. Sobre a escrivaninha não estava, não havia escrivaninha. Tinha sido vendida. Deixei em cima de algum livro, mas em qual das prateleiras? Algumas delas estavam com os livros mais empilhados que organizados. Olhei primeiro na estante que lembrava ter mexido. Passei o dedo pelos livros, Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas, Sagarana. Não, aqui em literatura não. Talvez na estante de poesia. Ah, sim, aí está, em cima do Estar Sendo. Ter Sido, livro da Hilda Hilst. Peguei o telefone. Era um WhatsApp da Ísis, editora de um grupo multimídia. O que ela quer comigo? Estávamos separados, e sem nos vermos, há mais de dois anos. Não tínhamos brigado, nem nada. Apenas cansamos um do outro e nos separamos. Depois fiquei sabendo por um amigo que ela havia sido contratada para dirigir um departamento da empresa. Aliás, foi a única pessoa para a qual não pedi ajuda. Nem adiantaria. Ísis jamais contrataria a mim ou qualquer pessoa que tivesse relação próxima. Questão de ética, “Contrato gente competente, não amigos”, falava um sorriso sádico. Abri o aplicativo. Dos pauzinhos da bateria restava um, quase no fim. Procurei o carregador, pluguei o telefone na tomada e sentei-me no banquinho. Não sabia se ria ou chorava com a mensagem: “Tenho proposta de trabalho. Interessante e gratificante. Quer? Me ligue. Bjs.”

Dei um pulo e joguei o telefone para o alto. Preso ao cabo, ele deu um tranco. Assustei e, antes que o telefone batesse no chão, aparei-o com o pé, reduzindo o choque. Em hipótese alguma poderia ficar sem aquele aparelho agora, para mim, milagroso. Enquanto procurava o número telefônico, minha memória revivia o passado. Quando a gente se conheceu ela foi poesia em minha vida. Dias negros aqueles. Cheguei a pensar em suicídio. Aí ela apareceu. Luz no fim do túnel.

Durou pouco. Era muito regrada. Tinha hora pra tudo. Acordava todos os dias às sete horas da manhã, eu, ao meio dia. Aí já era um problema. Brigava comigo por não tomarmos café da manhã juntos. À noite era outro problema. Ela deitava cedo, no máximo onze horas, eu, três, quatro da manhã. Outro problema porque ela queria sentir-se aconchegada quando deitasse e eu, claro, não fazia isso. Elaborava um cronograma semanal que o casal deveria cumprir religiosamente. E cobrava cada detalhe. Era um saco. Só não agendava os dias em que treparíamos. Acho que isso não conseguiria planejar. Tinha um tesão incontrolável. Perdi a conta das vezes que acordei com ela chupando meu pau e se masturbando. Nem sempre aguentava o tranco. Ela não ligava, desde que não associasse com alguma galinhagem que eu pudesse estar praticando. Aí a coisa ficava feia. Era possessiva. Imenso. Tinha ciúmes até dos fantasmas. Fez porque fez até meus amigos se afastarem. Ficaram só os dela. E eu era tão cego, dizem que o amor é cego né?!, que nossa relação durou uns bons anos. Não sei como aguentei. Quando propus nos separarmos ela ficou feliz e confessou que estava prestes a me fazer o mesmo pedido. Estava apaixonada por outro. Tinha um amante. A vantagem de um casal só morar junto, sem oficializar a união, é essa, não desperdiça dinheiro com advogados. E a separação pode ser simples, como no nosso caso. Ela levou as coisas dela, e algumas minhas, confesso, mas não falei nada, deixei passar; e eu continuei morando no apartamento do qual agora estou sendo despejado. Coisas da vida. Agora essa: Ísis propondo trabalho!

− Ísis?! (...) ah, não? (...) tá ocupada. Tudo bem. Espero. E esperei um bom tempo. O celular, acoplado à energia elétrica, incomodava a orelha por ele aquecida. Celular velho é isso. A bateria vicia, descarrega toda hora. O aplicativo não carrega. E os créditos estão por acabar e ela não atende ao telefone. Acho melhor desligar. E se os créditos acabarem agora? Desliguei o telefone. Achei melhor. Liguei novamente para pedir o endereço, pelo menos isso pois, ficar sem contato me congelava a alma. – Alô. Desculpe, a ligação caiu. Estava esperando a Ísis (...) A senhora poderia me passar o endereço? Preciso falar com ela pessoalmente. Entendi, entendi. Mas é que também preciso do endereço... (...) Ísis, é você?! Você me mandou um WhatsApp... (...) Claro que topo, mas tem um detalhe. Minhas habilidades de jornalista são nulas. Em hipótese alguma teria coragem de entrevistar pessoas, sejam elas públicas ou não. Melhor seria chamar um jornalista para esse trabalho, Ísis.

Quando pronunciei estas palavras meu corpo congelou e eu emudeci. O que estava falando? Prestes a ser despejado. Prestes a passar fome pelas ruas de São Paulo. Prestes a mendigar um pedaço de pão e, ainda assim, dispensa o trabalho?! − Ah, entendi! Você quer que eu colete informações diárias sobre o que estou presenciando sem o compromisso de escrever qualquer texto. Só falar do que vi? (...) bem, nesse caso, topo. Só tem um problema e espero que você entenda e, por favor, me ajude. Preciso desesperadamente receber adiantado. E como você me conhece bem, afinal vivemos um par de anos juntos, sinto-me à vontade para te pedir este favor. Daqui a dois dias serei despejado e só tem um jeito de evitar o despejo, pagar a dívida. Você me ajuda? (...) Ísis, você é um amor, minha deusa egípcia, como posso te agradecer? Dizer obrigado é pouco... (...) se eu ainda te amo? Pra dizer a verdade, nunca te esqueci. Mas, por que me pergunta? Está solteira de novo? (...) alô, alô. Desligou o telefone, com certeza. Bem, pelo menos agora estou garantido. Com essa grana pago os aluguéis atrasados, as dívidas e ainda sobra para alguns meses. Agora, arrumar as malas e ir para Paraty. Eita, coisa boa! Cinco dias circulando entre as linhas e os bordados da literatura e da poesia. E a homenageada da Flip 2018 é ninguém menos que Hilda Hilst, a irreverente poeta e escritora que, rejeitada em vida, hoje, post mortem, é disputada pelas editoras.

Presente dos deuses, era a única expressão que dava conta do significado daquela proposta salvadora. Que maravilha, exercer um trabalho mais chegado ao prazer do que ao sacrifício, se livrar por alguns meses de preocupações financeiras e, melhor ainda, não ter que entrevistar ninguém. Disso tenho o maior cagaço. Fico emudecido, sem saber o que perguntar. Quando consigo abrir a boca, balbucio. Admiro o trabalho dos jornalistas por isso, eles não se intimidam em conseguir uma entrevista. Às vezes chegam a ser intrometidos, entrões mesmo, mas é parte do trabalho. Tem que dar um desconto. Eu não sirvo pra isso. Prefiro ficar na minha e inventar, eu mesmo, meus fatos, sem ter que falar com ninguém, só comigos mesmo. Eu e eles, na solidão.

Cheguei em Paraty no final da tarde com aquele calor típico de nosso inverno, nem muito quente, nem muito frio. Estava a pouco menos de quinhentos metros da pousada, na Praça do Chafariz, dez minutos a pé, no máximo. Com minha mala pequena, ainda que pesada, faria o trajeto tranquilo deslizando-a pela calçada. Ledo engano. Assim que saí da rodoviária, percebi que seria difícil puxar a mala naquele calçamento estreito. Quando tinha algum espaço, era ocupado pelos estandes das lojinhas modestas e provincianas. Melhor puxar a mala pela rua. Qual o quê! O calçamento era pior, com uma depressão no meio. Ótimo para escoar água, para andar, uma merda. Antes que as rodinhas da mala arrebentassem naquele sacolejar, peguei-a pela alça. Um erro, pois senti uma dor nas costas insuportável. Merda! Melhor quebrar a mala que travar a lombar. Só falta essa, ficar de cama em Paraty em plena Flip! E o compromisso? Teria que devolver o dinheiro recebido, mas, como? Já gastei quase todo pagando as dívidas. Melhor segurar a peteca, tomar cuidado com as costas e seguir em frente. Respirei fundo, estiquei lentamente os braços e ergui, mais lentamente ainda, os pés. Alonguei todo o corpo por vários minutos. As pessoas passavam. Um ou outro, desviando-se, manifestava algum estranhamento, mas continuavam sua jornada. Diminuída a dor, ergui a mala e coloquei-a na cabeça feito as mulheres lavadeiras que transportavam seus sacos de roupa até a beira do rio. Andava com cuidado. As solas de couro dos sapatos escorregavam com facilidade pelas pedras e o risco de cair era grande. Meus passos eram lentos, quase em câmera lenta, mas, mesmo assim, tomando todo o cuidado, meu pé direito deslizou prendendo-se no vão entre as pedras. Perdi o equilíbrio. Num esforço hercúleo para que a mala não caísse, joguei meu corpo para o lado contrário ao da queda e evitei o baque. Não caí, mas a mala sim. Uma senhora que viu a cena, ao passar por mim, não se conteve:

− Esse sapato não serve não, moço. Por aqui tem que andar de tênis ou de chinelo. Melhor é descalço, né?! – deu uma risadinha e continuou andando. Cacete, tem certas pessoas que ficariam melhor caladas. Velha chata! Olhei-a de forma ríspida, fechei a cara, mas ela continuou sem dar bola. Melhor assim, pois caso ela dissesse alguma coisa seria capaz de armar um barraco. Voltei a colocar a mala na cabeça e pisei em ovos os quatrocentos infindáveis metros restantes. Na cabeça, além da mala, a mulher dando risadinha e dizendo, “melhor é descalço, né?!” Há poucos dias a teria agredido, com raiva. Não. Não daria socos nem pontapés. Mas agrediria, ah, se agrediria. Até que meu pavio estava maior agora, antes era bem mais curto e eu explodia por nada, mas não estava suficientemente longo para evitar minha ira, minha putice, quando cheguei na pousada. A suíte, putz! Chamar aquilo de suíte é brincadeira. Quarto sem janelas, em frente à recepção, no fim da escada, por sinal, alta, bem alta. Quinta categoria a preço de cinco estrelas. Depois do banho telefonaria para Ísis e reclamaria. Tudo bem, não sou exigente, não quero hospedagem de luxo. Quero apenas um pouquinho de conforto como, por exemplo, ter luz do sol entrando pela janela do quarto. Pelo preço que estavam pagando encontrariam algo melhorzinho. Mas não precisei telefonar, ela o fez antes. Respirei fundo. Diminui a chama para o pavio aguentar nem que fosse por alguns minutos. Relações profissionais tem que ser frias... pro-fis- sio-nal. Atendi:

− (...) também precisava falar com você. Coincidência. (...) É. Sei. Sincronicidade, mais do que coincidência. (...) O assunto? É sobre a pousada. Para dizer a verdade estou puto. Por que me botaram num quarto sem janela? Porra! (...) tá, tudo bem, mesmo que tenham fechado a agenda em cima da hora, conseguiriam algo melhor (...) entrar no Facebook? (...) Seguidores? Quem tem seguidor é profeta! Você não está falando sério, está? Só falta essa agora, tirar fotinhos do prato de comida e postar no Facebook. Ce tá brincando! Nem a pau faço isso. (...) aumentar o público?! Ìsis, essas redes são bolhas. A gente fala sempre com as mesmas pessoas. Um saco. Quero não. Aliás, nem está no nosso contrato. Fim de papo. Fui. (...) jantar na segunda-feira, quando chegar em São Paulo? Mas, por que? Para discutir o trabalho? (...) não?! (...) nós? Eu e você? Não estou entendendo (...) tá, tudo bem. Só não entendo o motivo do jantar, afinal são dois anos sem se ver. E agora, assim, do nada, um jantar? (...) tá. Não quer falar por telefone. Entendo. Tá bem. Vou pensar, mas acho melhor terça. Segunda fica difícil, saio daqui à tarde.

A birra suavizou depois dessa conversa. Afinal, que importância tem um quarto sem janelas diante do reencontro com uma pessoa outrora amada? Liguei o chuveiro na temperatura máxima e tomei um banho demorado enquanto em minha tela cerebral as imagens passeavam céleres: as noites de amor enlouquecido, as poesias escritas em conjunto à beira-mar e o corpo pequeno, roliço e gostoso. O coração começou a bater forte, de conformidade com a primeira vez, quando a conheci. Enlouqueci. Seduzi-la foi uma das coisas mais deliciosas que me aconteceu. Conversamos horas durante um jantar com um grupo de amigos. Na despedida, convidou-me para um café em seu apartamento. Conversamos horas em sua quitinete. A cama, servindo de sofá. Ela à minha esquerda, quase deitada. Eu, sentado à beira da cama, com o corpo curvado para ela. Fumei não sei quantos cigarros arquitetando uma forma de declarar meu amor, que, àquela altura, era puro tesão. Fumei mais um cigarro e recostei-me na cama, apoiando as costas na parede. Deslizei lentamente o corpo e levei o braço direito em direção ao seu quadril. Senti, através do tecido preto, liso e fino, sua pele quente. Pressionei. Ela pegou minha mão, roçou-a pelo corpo até chegar em seu mamilo. Nossa relação durou até ela se apaixonar por outro.

A abertura da Flip se daria em poucas horas. Pelas informações de Alexandre, gerente da pousada, estava a cinco minutos da Praça da Matriz, local dos eventos oficiais. Lá, além do auditório para os pagantes, uma enorme tenda, com projeção ao vivo e capacidade para mais de 700 pessoas, foi montada para exibir as mesas que aconteciam ao lado. Sem ingressos para o auditório principal, acompanharia a abertura pelo lado de fora, na tenda. A incompetência e falta de profissionalismo dá nisso, tudo tem que se improvisar. Tudo se resolve em cima da hora:

– Quando a gente decidiu a pauta não tinha mais ingresso, fazer o quê? − dizia Ísis com vozinha chorosa.

E por falar em improvisos, estava com poucas informações sobre o evento. Sabia que na abertura a atriz Fernanda Montenegro se apresentaria. Sabia que alguns fenômenos literários, o carioca Giovani Martins, a francesa Leïla Slimani, estariam presentes. Só isso só. Não tivera tempo para pesquisar a programação, ocupado em evitar o despejo e pagar as contas. Nas duas horas que me restavam, antes da abertura, me programaria e ainda teria tempo de dar um primeiro voo solo na cidade. Só não contava com a chuva. Do meu quarto sem janela, não ouvia nem via nada. Depois do banho, vesti minha roupa quentinha, a temperatura começara a cair, desfiz a mala, organizei as roupas e desci a escada. Surpresa! Foi botar o pé na calçada que a chuva começou a cair. Pequenas gotas, a princípio, depois engrossaram. A alternativa era entrar na padaria, esquina da rua da Lapa com a Praça do Chafariz, tomar um café e esperar.

Para evitar a chuva, muitos, como eu, entraram na padaria formando uma fila enorme em direção ao caixa. Obedecíamos ao aviso estampado no balcão, bem à vista: “escolha, pague e consuma”. Nas portas, pessoas aglomeradas, fugindo da chuva, confundindo a fila que tartarugava. Lá fora, poças d’água proliferavam. Paguei o café e, antes de dirigir-me ao balcão, olhei para fora e, sem pensar, falei em voz alta, “que merda essa chuva!”. Não deu outra. Uma senhora, na paciência de seus oitenta anos, olhou para mim e disse:

− Moço, já experimentou viver sem água?

Não falou mais nada. Voltou à espera da chuva passar. Sua pergunta foi uma pancada. Desnorteei. Perdi o rumo, não que tivesse algum. Pergunta sorrateira. Jeito sacana de passar um pito na gente. Meio sem jeito continuei em direção ao balcão cuja fila era pouco menor que a do caixa, mas também tartarugava. Atrás dele as três jovens garçonetes distraíam-se com fofocas enquanto atendiam. A chuva diminuiu e a fila também. Chegou minha vez. Eu já estava encostado no balcão há algum tempo, só o que fiz foi erguer a comanda na esperança de ser visto e atendido. Com o movimento menor, as garçonetes esqueceram do balcão e se divertiam, sussurrando umas às outras. Perdi a paciência e dei um berro. Fui atendido rapidinho, mas o café veio morno. Do meu lado, uma garota, que não tinha visto, cegado pela minha quizila, acompanhou toda a cena. De soslaio, me olhava enquanto fazia seu pedido. Tomei o primeiro gole do café e comecei a observá-la. A medi da cabeça aos pés. Estatura mediana. O quase branco de seu vestido longo, esvoaçante, leve, desenhava as linhas de seu corpo esbelto, de cintura fina, coxas firmes e pés delicados. Diminui o tamanho dos goles de café. Ganharia mais tempo para apreciar a musa que se apresentava à minha frente. Quando seu pedido finalmente chegou, meu café estava praticamente gelado. Bestificado, acompanhei sua saída da padaria sem sair do lugar. Sentia-me um paspalho. Ela deu dicas, me olhou, ela queria, senti que queria, tava a fim e eu fiquei quieto, tomando café, caralho! Ela é linda! E a deixei ir embora sem mais. Evaporou.

De repente o que começara a sentir por Ísis, depois de nossa conversa, desapareceu. Os batimentos cardíacos aceleravam agora por aquela jovem desconhecida. Saí da padaria, a chuva havia passado, e olhei para todos os lados. Nada. Resolvi andar pela rua da Lapa e ir até a Praça da Matriz, pegar a programação impressa. Afinal, tinha um trabalho a cumprir.

Do lado de fora da tenda, embaixo de chuva, assisti à apresentação de Fernanda Montenegro lendo alguns poemas e trechos em prosa de Hilda Hilst. Com todas suas cadeiras ocupadas, centenas de pessoas em pé estendiam-se desde a entrada da tenda até a praça, indiferentes ao chuvisco, depois chuva forte, atentos à voz poética da atriz. Procurei abrir espaço, tentando entrar na tenda para proteger-me da chuva, mas, o que consegui de melhor foi ficar embaixo da calha, onde a água caia mais espessa, e ter o blusão encharcado. Um suplício. Chuva me incomoda e a frase daquela velha da padaria voltava, intermitente. Aí, além da chuva, era a velha que desviava minha atenção, obrigando-me a um esforço extra para ouvir a leitura da atriz. Valeu o sacrifício. Fernanda Montenegro, grande atriz que é, não teatralizou os versos da poeta como é usual entre atores, não só atores, poetas também. Isso me incomoda um pouco. A leveza da palavra borboleta se perde ao ganhar asas teatrais.

Com a garoa persistente, desisti de assistir à segunda parte da abertura. Precisava encontrar um bar ou restaurante para saciar minha larica e me secar. Abri caminho entre a multidão que, tanto quanto a chuva, persistia concentrada na tela do auditório e atravessei a praça. Em frente à livraria patrocinadora do evento, contígua à praça, havia uma série de bares e restaurantes que ofereciam cardápios diversificados, além de bebidas típicas da região. Beber, vontade não tinha. Comer, sim. Uma comida leve, rápida e digerível. Só que peguei o caminho errado, no lugar de virar à direita, virei à esquerda e saí numa rua que, apesar de movimentada, não tinha qualquer opção gastronômica. Voltei. A chuva parou, mas, quando cheguei ao local certo, os bares estavam lotados. Sem chance de encontrar mesa vazia ou mesmo uma banqueta no balcão. Onde poderia encontrar um bar ou restaurante mais sossegado? Que direção tomar? Nada conheço desta cidade. Negócio é andar a esmo até encontrar algum boteco. Poderia perguntar para alguém, mas não estava a fim. Estava com o saco cheio das pessoas. Queria distância. Ficar sozinho. Sentar numa mesa, num lugar quentinho, comer um lanche, tomar um café, quem sabe até beber uma cerveja, o que não me é aconselhável, e navegar nas lembranças daquela jovem. Redesenhar seu rosto, seu corpo. O celular vibrou. Caralho, que essa mulher quer comigo? Me ligue. Me ligue o caralho. Não tenho nada a dizer. Ligo não. Desliguei o celular e continuei escorregando nas pedras, desviando-me da multidão e procurando um lugar para lanchar.

Não demorei a encontrar uma lanchonete que ficava na esquina de um cruzamento repleto de pessoas que assistiam a um grupo de maracatu. Com certeza não teria lugar para sentar, mas, fazer o quê, lancharia em pé, encostado no balcão. Foi difícil entrar. As pessoas comprimiam-se na rua bloqueando a porta. Forcei a barra. Ásperos “dá licença” e o empurrar um aqui, outro ali, me ajudaram a chegar no balcão para ser atendido.

− Por favor, um sanduíche de queijo quente e um café.
− A gente não pode atender no balcão. Só nas mesas.
− Mas, não tem lugar. Está tudo ocupado.
− Tem que entrar na fila – apontou em direção a umas quinze pessoas − e esperar. Comecei a reclamar em voz alta. A balconista não deu atenção, voltou-me as costas e foi para a máquina de café atender um pedido. Desisti. Girei o corpo e, antes de dar o primeiro passo, extasiei. A garota da padaria estava ali, bem na minha frente, sentada e me olhando. Ela sorriu, apontou-me a cadeira vazia em sua mesa. Dessa vez não hesitei. Agradeci o convite e sentei-me inebriado. Estava com o mesmo vestido, mas, na padaria eu não percebera nem o modelo drapeado, nem o decote generoso que lhe aumentava a sensualidade.

− Está mais calmo? – perguntou olhando-me nos olhos. Ouvi e entendi, mas, emudeci enfeitiçado pelo som de sua voz que sentia penetrar em minha pele. O sangue célere em minhas veias aumentou meus batimentos cardíacos. No peito, a sensação de peso e de vazio, um ampliando o outro. Eu a olhava embevecido. Devia estar com cara de atoleimado. Bobo. Se tivesse que escrever uma carta de amor naquele momento ela seria uma das mais ridículas jamais escritas. Seu sorriso cresceu e antes que voltasse a fazer a pergunta, comentei:

− Que coincidência, não? Na padaria você me vê brigando. Aqui, idem. Que chato. Deve achar que sou ranzinza, não?!

Não teve tempo de responder. A garçonete chegou trazendo-lhe um sanduíche de linguiça com queijo branco e um suco de laranja. Aproveitei e pedi o meu. “Vai demorar uns dez minutos”, disse mal-humorada. Levantei os ombros em sinal de indiferença e confirmei o pedido. Meu receio era que a garota, tendo consumido seu lanche, fosse embora e eu ficasse sozinho. Com o coração acelerado, matutava estratégias para mantê-la comigo enquanto conversávamos inutilidades. Meu lanche chegou e antes que começasse a me servir, perguntou-me o que fazia em Paraty. Foi a pergunta salvadora. Ao saber que estava ali a trabalho, se ofereceu para levar-me a uma das casas parceiras da Flip, a Casa do Desejo. Disse que conhecia o coordenador da casa, um poeta de São Paulo, e a casa era legal porque, além de sua editora, a Patuá, ele reunia várias independentes, do Brasil inteiro. E a programação, intensa. Vários lançamentos de livros, poesia e prosa, saraus, performances, shows, debates.

Não hesitei um instante em aceitar a proposta. Sentia-me leve, tão leve que parecia flutuar. A caminho da Casa do Desejo, ao passarmos pela mesma rua dos bares próximos à Praça da Matriz, ela parou, apontou para um deles, o Bar da Prosa, e disse:

− Depois, se você quiser, mais tarde, quando estiver mais vazio, podemos beber o Jorge Amado.
− Beber o Jorge Amado?! – ri. Em tom de deboche, continuei – com certeza tem cravo e canela.
− Óbvio. É uma caipirinha feita com a pinga Gabriela – cachaça com cravo e canela – misturada com limão e maracujá. Delícia das delícias. Parece refresco. Quem vem a Paraty não pode ir embora sem experimentar.
− Afinal, as filmagens de Gabriela, Cravo e Canela foram aqui. Sonia Braga, Marcelo Mastroianni. Bela homenagem. O pessoal sabe fazer marketing. Criaram a caipirinha e deixaram registrada as lembranças do filme.

Estávamos parados, um quase encostado nos ombros do outro, ambos olhando em direção ao bar. Quando terminei de falar ela pegou em minha mão, apertou-a entre seus dedos e disse:

− Vamos? Já é tarde. Talvez eles fechem às dez – e me puxou. Ela andava à minha frente, rápido, segurando minha mão com firmeza. Eu a acompanhava feito criança, com medo de escorregar nas pedras, ainda mais agora, com elas molhadas pela chuva. Consultei o relógio do celular. Era pouco mais de nove e meia. Tentei diminuir-lhe o passo, em vão. Não precisava ter pressa. Era o primeiro dia do evento, tínhamos mais quatro dias pela frente e a Casa continuaria lá, até o final. Mas ela não me ouvia ou fingia não ouvir. O motivo, caso houvesse algum, me escapava. Entramos numa rua transversal à praça, a rua da Cadeia, que terminava numa orla, em frente a uma pequena baía. Depois da primeira quadra o fluxo de pessoas diminuiu consideravelmente e ela perdeu a pressa. Apertou minha mão delicadamente e, em silêncio, encostou seu braço no meu e caminhamos de mãos dadas, feito namorados. Quando chegamos à Casa do Desejo estávamos quase colados.

A Casa finalizava sua organização e poucas pessoas percorriam seus ambientes. Na sala da frente, logo na entrada, bancas de livros e jornais literários, a maioria protegida por plásticos. Duas ou três delas atendiam ao público exíguo àquele momento. Na saída, uma nissei conversava com um casal sobre a poesia japonesa, Bashô e haicais eróticos. Fiquei curioso. Olhando de soslaio, fingindo ver os livros expostos em sua bancada, acompanhei parte da conversa e soube que ela, Marilia Kubota, era uma poeta de Curitiba, escritora de haicais. Até aquele momento nunca tinha ouvido falar de haicai erótico e muito menos que Bashô os tivesse escrito. Deu até vontade de pedir maiores informações, mas não. Preferi manter distância. Depois pesquisaria. Que deu vontade de perguntar, deu. E poderia até usar o famoso “dá licença” para me aproximar, os três bloqueavam a porta. Simples. Mas só pedi licença, eles se afastaram e saímos de mãos dadas.

Àquela altura não estava muito interessado em qualquer coisa que não fosse ficar com aquela garota. Estar do lado dela aumentou minha ansiedade. Pressão e vazio disputavam meu peito, mas estava feliz. Vontade era abraçá-la, beijá-la. Aí me dei conta: não sabíamos o nome um do outro! E estávamos juntos há algum tempo. Encostei-me na mureta que divide a frente da Casa do Desejo com o prédio do museu e acendi um cigarro. Ela ficou em pé, na minha frente. Uma baforada imprevista cobriu seu rosto. Ela abanou-se com a mão. Pedi desculpas. Resmunguei que não tinha vergonha na cara, que precisava largar essa merda, que parecia um dragão falido. Ela riu. Aproveitei:

− Sabe que a gente tá conversando um tempão e nem sei seu nome? Aliás, nem lhe disse o meu!

Ela tomou o cigarro de minha mão, tragou fundo, prendeu a respiração, olhou para o céu e soltou a fumaça. Devolveu-me o cigarro e voltou a olhar as estrelas. No céu a lua cheia dava um ar romântico ao vazio da rua e nos lembrava a eclipse, que aconteceria no dia seguinte. Depois de duas ou três tragadas em silêncio, resolvi refazer a pergunta. Não tive tempo. Ela pegou minha mão, ajeitou-se entre minhas pernas, abraçou-me e cochichou em meu ouvido:

Leva-me a um lugar onde a paisagem
Se pareça àquela das visões da mente.
Que seja verde o rio, claro o poente
Que seja longa e leve a minha viagem.

Leva-me sem ódio e sem amor
Despojada de tudo que não seja
Eu mesma. Morna estrutura sem cor
A minha vida. E sem velada beleza.

Leva-me e deixa-me só. Na
Singeleza de apenas existir, sem vida extrema.
E que nos escuros claustros do poema
Eu encontre afinal minha certeza
(1)

Minha cabeça entrou em parafuso. Os pensamentos enroscando-se uns aos outros. No peito sentia as batidas do coração mais fortes do que atabaque em terreiro de umbanda. Um calor aconchegante vinha de seu corpo cada vez mais próximo. Receoso, abraçava-a com leveza, mas, à medida que falava, o calor aumentava e, quando ela acabou estávamos atados. Por nada nesse mundo queria soltá-la. Queria aquele calor que me aconchegava, me acarinhava, para sempre. O barulho da porta de madeira se fechando na Casa do Desejo despertou-me do sonho. Afastamo-nos e, de mãos dadas, atravessamos a rua em direção à orla.

− Não vai me dizer seu nome?

Ficou quieta. Apontou para as pedras à margem da baía, segurou minhas mãos e saiu correndo. Acomodamo-nos numa pedra rochosa. Ela olhava para o céu. Eu, pra ela. A pedra úmida incomodava e esfriava minha bunda e a toda hora procurava posição melhor. O que é um pequeno incômodo quando se está no paraíso? Diante de seu silêncio, refiz a pergunta dando um leve toque de brincadeira no tom de voz:

− Por acaso você tem horror a que lhe chamem pelo nome?

Ela riu. Esticou as pernas, arrumou a barra do vestido drapeado, ergueu os olhos para o céu e voltou-se para mim, sorrindo:

− Tigresa. Me chame de Tigresa – e jogou seu corpo sobre o meu, me abraçando e beijando. Lentamente deslizamos pela pedra e caímos deitados na areia. A brisa fria de inverno aquecia nossos corpos enrolados.

Vestimos nossas roupas e nos encostamos na pedra, abraçados. Deitei minha cabeça sobre seu peito e adormeci. Ao acordar acompanhava-me um bilhete:

Antes do Ser
havia um homem
consciente
destruindo o lirismo
descuidado
das minhas madrugadas.
(2)

Adiantou nada procurá-la. A cabeça a mil tentando entender seu desaparecimento. Teria dito alguma coisa que a incomodou? Uma palavra, um gesto, sei lá, uma bobagem qualquer e ela entendeu mal? Ou não gostou de transar comigo? Só queria um encontro ocasional, sem compromissos? Caramba, nada justificava aquele sumiço. Naquela noite, o sono demorou a chegar e acordei irritado. Quando se está no pior da gente tudo contribui... para piorar ainda mais. Fiz a besteira de ligar o celular para ver as horas, cheguei tão deprimido e irritado na noite anterior que nem lembrei dele, e agora isso, notificações na telinha, todas de Ísis: “Atende o telefooooone / Por que você não quer falar comigo? / Preciso falar com você, me ligue / Só cai na caixa postal. Tá desligado? / Por que desligou o telefone?” Inúmeras mensagens. Repetitivas. Coloquei o celular no criado mudo e fui tomar café. Ainda era cedo, dez horas da manhã, e importante era insistir na procura. Em Paraty, a maioria das pessoas se concentra no Centro Histórico, uma área de pouco mais de 30 quadras, o que me dava esperanças. Era como procurar agulha no palheiro, mas no desespero da perda não via nem agulha nem palheiro. E andava lépido, sem me importar com as pedras escorregadias, ainda que volta e meia escorregasse.

A ardência do sol começou a incomodar-me e resolvi procurar um restaurante para almoçar. Procuraria um fora do Centro Histórico, região mais feinha, mais comercial com suas casas e lojas malcuidadas, menos atraente ao olhar do turista, e por isso mesmo mais fácil de encontrar um lugar para comer em paz, sem vozerio misturado ao som da tevê. Aproveitaria a chance e responderia às mensagens de Ísis. Telefonar, como ela pedira, nem pensar.

Acabei encontrando um restaurante depois de andar um bocado, sei lá, uns dois quilômetros, depois da Praça da Matriz. Os bares e restaurantes, exíguos, ofereciam um cardápio pouco variado, sem muita opção para um quase vegetariano, como eu. Foi bom, andar. Minha cabeça começou a assentar, mas não a angústia da perda. As imagens de Tigresa ressurgiam em loop, intermitentes. Sentei à mesa do restaurante, um salão amplo e despojado, com uma vitrine de pães, à direita de quem entra, o balcão em formato de U formando dois corredores paralelos e as mesas já prontas para servir com seus pratos, talheres e acessórios, ocupando o espaço entre a entrada e o balcão. Duas ou três pessoas comendo e nenhuma tevê ligada, ufa! Que alegria! Almoçaria em paz. O cardápio era arroz, feijão, batata cozida e um acompanhamento, frito ou assado, que poderia ser peixe, carne vermelha ou frango. Escolhi o peixe, pedi uma cerveja e sentei na primeira mesa que encontrei, próxima ao balcão. Cerveja! Beberia cerveja! Ah, quanto tempo! Anos. Muitos anos. Desde que esse bloqueio apareceu. Primeiro foi leve, parecia preguiça. Depois virou dor de cabeça. A tela em branco do computador ofuscava e ofuscava e ofuscava e nada a preenchia. Nem uma letra. Nada. Comecei a ter dor de cabeça. Bebia qualquer golinho e pimba! Dor de cabeça. Mal-estar. Da última vez, tá certo, eu estava de porre, vomitei no notebook. Queimou todo. Aí parei de beber. Escrever já não escrevia mesmo, então desisti. A frase “escrever?! não mais” virou mantra. Nada de criar nada. Só coisa técnica. Manual para consertar pneu furado. E olhe lá. Não reclamo. Nem posso. Saber escrever essas inutilidades me garante, pelo menos garantia, o aluguel. “Ah! Mas que sujeito chato sou eu / Que não acha nada engraçado / Macaco praia, carro, jornal, tobogã / Eu acho tudo isso um saco”(3).

Tudo mudou depois que conheci Tigresa. Tá certo, fiquei apaixonado. Meu coração não bate, dispara só de pensar nela. Penso o dia todo. É mais que paixão. Ela devolveu minha força de vontade. Meu desejo de voltar a escrever. De voltar a ter tesão em escrever. Não. Não poderia ser minha musa. A vira uma vez, uma única noite, na mesma que meu espírito se embebera de criatividade e rompera o bloqueio longínquo que vivia. A sensação que tive foi a de desbloqueio. Não como musa, sei lá. Ela abriu o baú trancado. Mil ideias, contos, novelas e crônicas borbulhavam em meu cérebro. Neles, nenhuma musa inspiradora, nem romantismo. Narrativas cruas. Substantivadas. Sem adjetivos. Sem musas. Sem Tigresa. Todavia, Tigresa está em todas e não está em nenhuma!

Levantei a mão e gritei para o jovem balconista que abria o freezer:

− Traz um Steinheger antes.

O telefone tocou. Era Ísis. Continuei bebendo. Vontade zero em atender. Coloquei o copo na mesa, hesitei, peguei o telefone:

− Boa tarde, Ísis. Que você quer? (...) Pelo amor de Deus, Ísis, estava sem bateria e esqueci de carregar. Porra, não enche o saco! (...) tá. Tem razão. Desculpe a grosseria. É que não estou bem, só isso. Acordei mal-humorado. Acontecimentos intempestivos. Acontece com qualquer um (...) não. Não tem outra, nem outro. Pelo menos por enquanto (...) Ísis, pelo amor de Deus, ciúmes não. A gente nem está junto (...) tá. Não vou discutir isso agora. Noutra ocasião, se acontecer (...) O jantar de terça-feira? Não, Ísis, melhor não. Vamos deixar para outro dia (...) Calma, Isis, não é nada disso! (...) tá, depois a gente conversa, minha comida está chegando, tchau!

Desliguei o telefone e olhei para o peixe que a mulher, a cozinheira do restaurante, colocava sobre a mesa:

− Senhora, desculpe, mas eu pedi peixe assado. Esse está frito!

Ela esfregou as mãos no avental, olhou para o prato, olhou para mim, ergueu as sobrancelhas em sinal de surpresa e disse:

− Ué?! Esse peixe é assado. Assado no óleo.

Quase engasguei. Ela estava me gozando, tinha certeza. Engoli a cerveja e, irritado, comecei uma discussão infrutífera. Controlei meu tom de voz para não berrar. Foi difícil, mas consegui. De nada adiantou. Para ela não havia diferenças entre os verbos cozer, assar e fritar. Insisti. Ela também. Bebi o restante que estava no copo, coloquei-o sobre a mesa e pedi que ela me trouxesse outra cerveja.

Estava para dar as últimas garfadas no peixe, crocante e apimentado, uma delícia, apesar de frito, não assado, quando o telefone vibrou sobre a mesa, à minha frente. Ísis, de novo! Que ela poderia querer agora. Acabamos de nos falar.

− Alô (...) Claro que sei Ísis. O celular identifica... (...) não Ísis, só estou irritado (...) é. Ainda. Mas passa. Que você quer? Pode me ligar daqui a pouco, estou terminando o almoço (...) Ah, me faz um favor. Não consigo digitar nesse tecladinho de merda do celular. Pesquise pra mim a palavra flipar (...) É. Flipar. Ouvi duas moças conversando ontem e usaram flip como verbo. Parece que tem algo a ver com surfe, sei lá. Pesquise pra mim (...) tá. Obrigado. Termino de almoçar e te ligo.

A cerveja ainda não chegara. Gritei para o balconista que demorou para entender o que eu falava. Demorou pouco menos para levar a cerveja até a mesa e ouvir, indiferente, minhas reclamações. Reclamei. Do peixe frito. Da demora em servir o prato, quase meia hora de espera. Da velha analfabeta que esqueceu da cerveja. Minha voz oscilava e não poucas vezes chegou ao limite do grito. O rapaz, jovem, com uma touca de proteção desgastada, uma camiseta velha com o logotipo do restaurante e uma cara de sonso, só ouvia. Tirando aquele sorrisinho sem graça, suas expressões permaneciam inalteradas. Quando terminei de falar, ele abaixou a cabeça, pediu desculpas e se retirou. Acomodei-me na mesa e voltei a comer. O peixe estava frio, o arroz gelado. Afastei o prato, me servi de cerveja e recostei-me na cadeira plástica do restaurante. O telefone voltou a vibrar.

− Que você quer agora, Ísis? Não falei que te ligaria quando terminasse de almoçar?! (...) desculpe. É. Continuo irritado sim. (...) Flipar? (...) Ah claro. Lembrei. Você achou? Existe mesmo? (...) enlouquecer? Pirar? Viajar no sentido psicodélico? Caramba! Não imaginava. É. Usado como verbo. (...) não tá no Aurélio?! (...) Só na internet. Entendi. Obrigado. (...) você não está falando sério?! (...) de jeito nenhum. Combinamos outra coisa. Passaria as informações com minhas impressões pessoais e quem escreveria a crônica seria seu funcionário. E você (...) deixeu falar! Desde que a gente morava junto não escrevo nada. Não será agora... (...) O cara está doente? Porra! Contrate outro (...) não, Ísis. Não sou jornalista. Sou formado em letras. Sei fazer crítica literária, quando muito e olhe lá. (...) sei que não precisa ser jornalista para escrever crônica. Não sou burro, cacete! Só acho difícil transformar um nada, uma coisica da paisagem, em crônica. Continuo com minhas inutilidades, texto publicitário, bula de remédio (...) E quem disse que isso é poesia? (...) Situação difícil?! Ísis, quem está me colocando numa situação difícil é você, por favor... (...) imagine. Não te mandarão embora só porque a coluna não saiu dois ou três dias. (...) quem está puxando seu tapete? (...) brincou! Era sua melhor amiga agora quer te ferrar, tomar seu lugar? (...) nesse caso topo. Tem uma grana a mais? (...) Só isso? Porra, é um pouco mais que nada! (...) Só tem um detalhe, não escreverei mais do que trinta linhas, tá?! (...) consideremos que retribuo seu favor, me contratou na hora que mais precisava. Estamos quites. (...) melhor esperar. Depois que chegar em São Paulo a gente combina. Assim é melhor (...) claro que quero te ver. Não é isso. Só não quero decidir agora, só isso. (...) Quer parar de me fazer essa pergunta? Você tem sua vida, eu a minha. Não fico te perguntando se você tem namorado ou coisa parecida (...) Ísis, por que está chorando? Pelo amor de Deus (...) Melhor a gente se falar mais tarde. A hora que estiver mais calma.

Final de tarde. Refazer o percurso do dia anterior, junto com Tigresa, seria inútil. Já o fizera três vezes. Se andasse por outros lugares, quem sabe teria sorte? Resolvi atravessar a ponte sobre o rio Perequê-Açú e conhecer o que alguns chamavam de Flip Alternativa. Na verdade, editoras independentes associadas como casas parceiras do evento. Peguei a rua da Cadeia que daria direto lá, além do que, passaria em frente ao Prosa, o bar que serve a tal do Jorge Amado e, quem sabe, até a experimentasse. Mas, sem Tigresa não teria graça.

Atravessei o fluxo de pessoas, tão intenso quanto do outro lado e, para fugir do burburinho, preferi a calçada, menos movimentada, à margem do rio. Duzentos metros depois da ponte me deparei com um barco todo pintado de amarelo e a caixa do motor transformada em estande de livros. Naquele momento, fim de tarde, o barco estava praticamente vazio, mas a programação patrocinada pela editora independente, Laranja Original, prometia. No dia seguinte, na sexta-feira, estava programado um sarau erótico que não perderia por nada. Mais à frente um aglomerado de pessoas impedia a passagem pela calçada. Atentos, ouviam uma mulher que comparava a figura real do Drácula, Vlad, o Empalador, nobre romeno do século XV, à figura do burguês capitalista. Ouvi a frase por acaso. Estava mais preocupado em sair dali do que em ouvir o que falavam. Mas, quando ouvi, congelei. Santo Deus! Como uma pessoa fala uma coisa dessas? Conhece história não? Santa ignorância, Marx! O sangue ferveu, senti meu rosto esquentar e uma vontade enorme de, aos gritos, contestar o erro crasso. Não, melhor não. Sabe-se lá qual o contexto em que falou! E se entendi errado? É. Melhor ficar quieto.

Saí do meio daquela gentarada e caminhei, mais calmo, até a Praia do Pontal. Anoitecera. No céu, a lua cheia nos lembrava que no dia seguinte encontraria o sol. Como seria bom acompanhar a eclipse junto com Tigresa, naquelas praias, naquele cenário colonial em festa. Parei num tronco à beira da praia, sentei e acendi um cigarro. O cenário iluminado ganhava um ar romântico, pouco compatível com meu estado de espírito. Com uma paisagem dessas, ser romântico é redundância, pensei. O telefone vibrou. Na tela, a notificação do WhatsApp:

- Tá com saudades de mim?

Tive vontade de jogar o telefone no mar. Desliguei. Pronto. Agora estou inacessível.

A brisa tornara-se mais fresca. Encolhi os ombros, fechei o zíper do casaco e voltei para a pousada.

Mais uma noite mal dormida. Tigresa não me saia da cabeça. O corpo febril. O peito apertado e o coração dilacerado. Na intermitência do sono, os sonhos e pesadelos. Seu vestido drapeado balançando ao vento. Seus cabelos ondulantes. Tigresa foge de mim, lhe corro atrás. Quero sentir seu corpo, seu calor. Estou prestes a alcançá-la, aumento a velocidade, estou perto, estico o braço, acelero o passo e toco-a. Tigresa desaparece. Acordo em lágrimas e passo o dia um trapo. Olheiras fundas, parecidas com os óculos do Spirit, detetive dos quadrinhos criado pelo Will Eisner. E os olhos? Semicerrados. Vermelhos. Parecia ter fumado maconha. No espelho, minha cara ressacada. Devia estar transparente porque, no final da tarde, quando fui tomar um lanche, a mocinha que me atendeu na lanchonete, tadinha, simpática de dar dó, teve a infeliz ideia de me perguntar se eu estava bem. Na hora não, mas depois fiquei com pena dela. Não merecia minha resposta:

− Que tinteressa saber? Nem te conheço - rabujei.

Ela fez um beicinho xoxo, colocou o prato sobre o balcão e saiu.

Enquanto me perdia procurando os endereços das Casas Parceiras para assistir a este ou aquele evento, Ísis insistia em suas mensagens e tentativas frustradas de falar comigo. Perder-me pela cidade era motivo de prazer, ver e ouvir aquelas pessoas contando histórias e lendas, e esperança, esperança máxima, encontrar Tigresa. Chato eram as tentativas de Ísis em falar comigo. Queria era ficar quieto, apreciando a festa da cidade e procurar, procurar e procurar Tigresa.

Dois eventos naquele dia distrairiam minha atenção. Um foi à tarde quando assisti à mesa com a autora francesa, Leïla Slimani. Antes de saber de sua participação na Flip, havia comprado, por indicação de um amigo, seu livro lançado aqui no Brasil, Canção de Ninar. Essa autora me impressionou. Sua construção de personagens e as amarrações que faz são incríveis. Uma arquiteta literária. Ouvi-la foi um presente dos deuses. Só uma outra escritora havia me fascinado tanto, uma escritora indiana, Gita Mehta. O entusiasmo inspirou-me uma crônica que escreveria assim que chegasse à pousada e, tinha certeza, até extrapolaria o número de linhas combinado.

O segundo foi frustrante. O livro Lula Livre Lula Livro, uma antologia, tipo manifesto, de poetas, escritores e artistas, seria lançado naquela noite e eu, particularmente, estava interessado na obra literária tornada documento histórico. Marcelino Freire, editor junto com Ademir Assunção, poetas e escritores paulistanos, seria o mestre de cerimônias e a festa, na Casa Paratodxs, à noite. Seria porque, antes da festa, roubaram os livros que deveriam estar, naquele momento, à venda. Nem livros, nem Marcelino Freire chegaram. No dia seguinte, sábado, o poeta viria com os poucos livros que conseguisse. Não os colocou à venda. Jogou-os ao público presente. Foi uma festa. Quanto aos ladrões, fiquei pensando, o que fariam com um produto difícil, de pouco valor? Não. Ladrão que é ladrão, profissa, não rouba livros.

Naquela noite, não queria chegar na pousada, me deitar, ficar pensando, me torturando, vendo as sombras cada vez mais tênues de Tigresa. Continuaria lembrando de seu rosto, seu corpo, cada detalhe daqui alguns anos? O esquecimento me amedronta. Não quero perdê-la. Quero mantê-la, nem que seja por um fio, na memória. No meu corpo. Na minha pele. Mas quero parar de sofrer. Não aguento mais essa pressão no peito. Essa angústia. Preciso encontrar Tigresa.

Andei a esmo por várias horas, distanciando-me cada vez mais do Centro Histórico. Procurava andar rápido, em ritmo de exercício, apesar das pedras irregulares, na esperança de cansar o corpo e apaziguar a mente. Mais de uma hora depois, esbaforido, sentei no balcão de um boteco. Pedi uma cachaça. O velho, talvez o dono do bar, ofereceu-me Gabriela. Gostei. Antes de Jorge Amado, conheceria o sabor do cravo e canela de Gabriela, a aguardente usada para a batida. Provei. Gostei. Intui, não ficaria nesta única dose e a chance de ficar bêbado era grande. Como profissional competente que me considero, preciso manter a pose, gravei no celular a crônica que mandaria naquela noite para Isis. Mesmo bêbado, conseguiria transcrevê-la. Ouvi a gravação, hum, texto amoroso, bom. Arquiteta da Linguagem, adorei isso. Acho que vou botar de título. Bêbado feito um gambá, não sei quantas doses bebi, nem quanto paguei por elas, sei que cheguei na pousada horas depois, madrugada alta, ruas quase desertas, mas ainda com movimento, não tão pequeno para o horário.

Acordei ressacado com o telefone em desespero. Atendi. Deveria ter olhado quem era antes de atender. Chatice! Ísis, logo cedo e depois de uma noite mal dormida. Saco!

− Fala... (...) nem vi que você ligou (...) estava no silencioso (...) Isis, não enche o saco. Meu celular não tem notificação de mensagem (...) Não sei, nem quero aprender a mexer nessa merda (...) pelo amor de Deus, de novo essa pergunta? (...) precisa saber para quê, Ísis? Que diferença faz se tenho alguém ou não. A gente não está junto há mais de dois anos (...) não sei se você pode ter esperança. Não sei se quero morar com alguém de novo. Não sei (...) não me separei de você por causa do seu amante. Nem sabia da existência dele (...) já faz muito tempo e não quero mais falar sobre isso (...) claro que tem a ver com você. Com a gente. Nossa relação. A gente brochou muito um ao outro (...) não. Você insiste que tenho outra (...) até poderia ser... (...) pirou? Não falei que estou com alguém. Você entendeu errado (...) vir aqui, só para checar? (...) Ísis, bote a cabeça no lugar... alô. Ísis, tá me ouvindo. Acho que o sinal caiu, falei antes de desligar. Caiu nada. Caiu foi minha paciência em aguentar aquela conversa maluca. Você diz uma coisa ela transforma em outra. Só falta aparecer por aqui. Estragará minha solidão. Pensando bem, até que seria uma boa. Não. Assumir compromisso nem pensar. Se ela vier, no máximo uma ou duas transas. Nada mais. Depois ela para um lado, eu para o outro. Ela voltou a ligar inúmeras vezes. Atendi nenhuma. Minha preocupação era a de todo dia, procurar e encontrar Tigresa. Mas como? Tinha apenas imagens na memória. Nenhum selfie. Nenhum registro. Nenhuma pista. Nada. Nadica.

Que mistério tem essa menina, delicada, sensual no jeito de ser? Que se firma no coração da gente? Não desgruda? Imagem morena. Cabelos esvoaçantes. Vestido deslizando pelo pedestal. Seu jeito de ser quase ninguém. Um dia os papéis desta lembrança se apagarão pelo tempo? Que mistério você tem, menina? E perambulei os mesmos trajetos. Repetidas vezes. Passei pela padaria, pela lanchonete, em frente à Casa do Desejo, fumava um ou dois cigarros ali, na expectativa de revê-la. Sentei na mesma rocha da praia onde transamos e onde ela me deixou maior abandonado. Exaurido, ocupei uma das poucas cadeiras vazias da tenda, onde o público aguardava o início da próxima mesa. Foi o momento feliz do dia. A escritora russa, Liudmila Petruchévskaia, divertia a plateia. Com oitenta anos de idade, passou a maior parte de sua vida censurada pelas autoridades soviéticas, é considerada um dos grandes nomes da literatura russa. Ao convite da moderadora para sentarem-se, a velhinha preferiu ficar em pé. O intérprete era seu filho que vive no Brasil há muitos anos. Depois, quando o filho traduziu o subtítulo de seu primeiro livro a ser publicado no Brasil, ela protestou, “não, não. Isso não está no meu livro”. Com seu figurino dark, vestido longo, preto e chapéu meio bicudo, lembrando as bruxas medievais, revelou-se uma performer. Já consagrada escritora, resolveu começar carreira nova e, aos 69 anos, começou a cantar. Terminada a entrevista fez um pequeno show musical, e interpretou em russo, inglês e francês alguns sucessos pop, Besame mucho, My way, etc. Fiquei tão apaixonado que queria abraçar a velhinha. Não fosse imensa a fila, pediria um autógrafo e tiraria um selfie. Essa mulher merecia. Terminada a mesa, permaneci um tempo sentado, lembrando das palavras da velhinha. Algumas indiscretas lágrimas deslizaram. Esperei-as secarem e fui tomar um café, no quiosque ao lado da tenda.

Depois, fui até a livraria, comprei e li seu livro de contos. Ideias pipocavam. Com a cabeça fervilhando, gravei a crônica sobre a escritora russa, telefonei para um amigo que volta e meia me ajudava nessas coisas, enviei o arquivo e, meia hora depois, o recebia transcrito em Word, prontinho para ser encaminhado a Isis. A experiência da madrugada não tinha sido nada animadora. Digitar bêbado é tarefa para poucos.

Instruído pelo vendedor de cocadas, fui até a famosa Casa do Abacaxi. Fui não. Tentei. Me perdi pelo caminho. Sentia esse desnorteamento desde o primeiro dia, logo que cheguei. Achava que era por desatenção, por não conhecer a cidade, mas, alguém contou que as ruas eram planejadas para isso, fazer a pessoa perder o rumo. Era uma estratégia de defesa contra a pirataria. Talvez seja imaginação dos nativos numa cidade cheia de histórias. A verdade é que naquelas ruas curvilíneas me perdia fácil, mesmo quando acreditava estar seguindo direitinho as indicações. Daquela vez não foi diferente, no lugar da Casa do Abacaxi encontrei, num cruzamento, três imóveis que me chamaram a atenção. Ouvira falar da influência maçônica na cidade e aquelas construções pareciam indicar para isso. Em cada um dos sobrados, um em cada esquina, havia uma coluna de pedras, que, com as outras, formavam um triângulo perfeito, um dos símbolos da maçonaria. Por isso, parei, intrigado. Vira o mesmo tipo de coisa em outras ruas, ali mesmo no Centro Histórico, mas não tinha me dado conta da quantidade de cruzamentos com essa formação triangular na cidade. O celular tocou. Estranho, uma mensagem enorme da Ísis no WhatsApp? Ela nunca faz isso, sempre escreve mensagens curtas.

“Sua crônica criou alguns problemas aqui na equipe. A supervisora devolveu pedindo para reescrever – mas não se preocupe, já reescrevi – porque foge um pouco da linha editorial, sabe?! Concordo com ela. Que interesse tem a habilidade literária da escritora francesa? Nenhum. O que ela viveu, sim, interessa. As coisas pelas quais passou. As violências que sofreu como mulher, como imigrante. O machismo lá na França. Isso interessa. Mas você, só para contrariar, se mostrar rebelde, rebeldinho, escreve crítica literária sem graça. Por favor, se manca. Te amo mesmo assim. Beijos.”

Essa mulher está procurando chifre na cabeça de cavalo. Linha editorial! Só se for a linha do dinheiro. Aí sim, tem linha. O fio de Ariadne que leva direto ao cofre do anunciante. Se não gostaram dessa, imagine quando lerem a outra. Foda-se! Pagam muito pouco para me preocupar com esse tipo de crítica. Coloquei o celular no bolso e voltei a prestar atenção nas colunas de pedra dispostas em triângulo. Observei as casas, nada modestas para o padrão colonial da época, algumas com símbolos nos azulejos cimentados na parede branca, como totens. Para apreciar melhor, ergui os braços, encostei um polegar no outro e, através dessa tela imaginária, comecei a apreciar os detalhes quando me taparam os olhos. Dei um salto, um pequeno susto, é verdade, que logo se dissipou com a delicadeza do toque. O coração disparado. Esbocei um sorriso. Seria ela? Fiquei em silêncio e quieto, tremendo por dentro, com o aconchego de seus dedos sobre meu rosto. Peguei sua mão, alisei-a e, sem afastá-las, arrisquei um

− Tigresa?!

Ouvi o sorriso leve, tímido, delicado. Com o coração a mil, tirei lentamente sua mão de meu rosto e virei-me sentindo sua proximidade. Novo tremor percorreu-me o corpo. Subiu pelas pernas, coxas, quadril, peito. Levitei. Nos enlaçamos.

Demoramos para nos afastar. Perdi a noção do tempo. Tinha perguntas, muitas perguntas a fazer, mas hipnotizado só conseguia sorrir. Tigresa não deu tempo para recuperar-me:

− Vamos beber Jorge Amado?

No trajeto até o bar, manteve-se alegre, porém calada. Qualquer pergunta que fizesse, ela sorria, apenas sorria. Parei com as perguntas. Afinal que direito tinha eu de saber qualquer coisa? A vida era dela e pronto. Acabei falando de meu encanto pela escritora e cantora, a velhinha russa, Petruchévskaia; de minha crônica sobre a francesa Leïla Slimani e a porrada que levei de Ísis, a editora. Tigresa ouvia com atenção. Só ouvia. E eu destampei a torneira da Emília. Falei aos borbotões.

No bar me entusiasmei com a batida. Parecia refresco e exagerei na dose. Tigresa chegou a alertar-me, “cuidado, ela sobe”, mas não a levei em conta. Na mesa ao lado, um jovem falava a um velhote de cabelos brancos das dificuldades em se manter um jornal impresso, dedicado à poesia e literatura. O jovem tirou da mochila um exemplar. Admirado pelo pouco que ouvi da conversa, comentei com Tigresa o quanto achava belo e heroico um esforço desse. Ela concordou e, para minha surpresa, o conhecia desde a época em que criara o jornal, há sete anos. Não. Ele não. Só ela o conhecia. O nome dele era Daniel Zanella e era vizinho da tia, em Araucária, perto de Curitiba. Ouvia dele pela tia, quando a visitava. A tia gostava dele e do jornal RelevO. Assinava, lia e se recusava, mesmo conhecendo o editor, a pedir exemplar de graça. Sabia que o jornal dependia de assinantes e não aceitava dinheiro público, nem ajuda de políticos. Só de assinantes.

− Uau! Num país como o nosso, isso é raridade! – comentei antes de começar a levantar-me para ir ao banheiro e as pernas bambearem. Tomara quatro doses de Jorge Amado sem lhes perceber os efeitos. Voltei, sugeri a Tigresa que fossemos passear pela praia e, bamboleando, apoiado em seu ombro, caminhamos. Ao atravessarmos a ponte do rio Perequê-Açú, lembrei-me de um sarau erótico que aconteceria às suas margens. Lembrava também ter visto o barco ancorado bem próximo da ponte e, como tínhamos algum tempo, resolvemos passear pela rua que margeia o rio e palco de inúmeros eventos paralelos. Perto do horário, atravessamos a rua em direção ao cais, onde o barco deveria estar. Não o achamos. Comecei a ficar irritado. No dia anterior ele estava bem ali, a uns cem metros do barco pirata, o Flipei, e agora não tem nada, só o pirata. Minha irritação com o sorriso dengoso de Tigresa não durou nada. Sentamos num banco e ela pediu-me o programa. Consultou o índice, abriu a página, leu e começou a rir:

− Esse sarau aconteceu ontem.

Também ri. Caramba, além de desnortear-me pelo Centro Histórico, agora confundo as datas! Ficamos sentados naquele banco um tempão. Os efeitos Jorge Amado haviam diminuído e sentia-me capaz de uma boa caminhada. Fomos até a praia do Pontal e sentamos à beira do cais, apreciando os reflexos da lua cheia na água. Quando ela me perguntou se tinha visto o eclipse, fiquei meio constrangido. Na verdade, sentia um pouco de vergonha. Como lhe explicar que nem lembrei. Estava obcecado por demais em encontrá-la. Agora a musa estava ali, sentada ao meu lado, me abraçando. Presente dos deuses. Tudo nela era perfeito. Seus cabelos ondulantes davam-lhe um toque ainda mais especial ao seu rosto delicado. Seus olhos azuis claros ganhavam mais vivacidade sob os traços sutis das sobrancelhas. O pescoço alongado. Os lábios carnudos esbanjando sensualidade tropical. Uma deusa. A perfeição, bem aqui, colada a mim. O celular vibrou em meu bolso. Merda, esqueci de desligar. Tirei-o. Duas notificações no WhatsApp, ambas de Isis. Uma, reclamando que não atendia ao telefone, a outra, informando que chegaria no dia seguinte para discutir a merda que eu tinha escrito sobre a escritora russa.

Senti o sangue subir. O rosto esquentar. Contrair-se. Ergui os ombros e respirei fundo. Desviei meus olhos para Tigresa. Certamente minha reação não lhe passou desapercebida, mas ela limitou-se a olhar-me, esboçar um sorriso doce e voltar-se para a lua cheia. Com aquele vestido, quase branco, quase transparente, assemelhava-se a uma divindade. Para mim a perfeição, a beleza suprema, de uma deusa. E ela estava ali, do meu lado. Perdê-la, jamais. Desceria aos infernos em sua procura. Mas inferno mesmo será quando Ísis chegar. Se bem a conheço, ficará possessa. E pensar que a gente não se vê há mais de dois anos! E que direi a Tigresa? Que ela é a editora, minha chefe, tudo bem, ela já sabia. Depois, não tinha nada a ver. Ísis ofereceu-me trabalho. Veio em boa hora. Aí começou a telefonar e mandar mensagens. Insistentes. Queria casar. Nem era namoro. Era morar junto, embaixo do mesmo teto, dividindo a mesma cama e tendo as mesmas brigas. Não. Não queria mais isso. Uma pessoa é legal até a gente compartilhar a casa. Nossos santos não batiam. A merda é que nunca falei isso pra ela. Nunca lhe apontei os problemas que ela me criava com seus pequenos desejos. Para atendê-la, tinha que viver um conto de fadas e, feito príncipe encantado, servir a princesa. Não dei conta de ser príncipe e tornei-me cavaleiro. A coisa complicou, mas nunca abri o jogo. Deixava que se enroscasse em sua própria teia. E o circo pegava fogo. Agora ela quer voltar. Foda-se. Os dados estavam lançados. Caso ela viesse, torcia para que não acontecesse, daria um jeito de manter Tigresa distante. Depois, noutro momento, até contaria das tentativas de aproximação de Isis. Não agora. Agora queria gozar as delícias do paraíso e esquecer que é solitário viver.
Dessa vez Tigresa não fugiu. Transamos na praia. Cochilamos. Transamos de novo. Depois fomos para a pousada. Riu quando reclamei da falta de janelas e mostrou-me o lado bom da coisa, os hóspedes não ouviriam os ais do casal. Eu ri, tomamos banho e transamos até dormir saciados.

Pela primeira vez, desde que chegara em Paraty, tive um sono restaurador. Sem sonhos, sem pesadelos. Sem nada. Apenas dormi. Acordei em alfa. Espreguicei-me. Sentei na beira da cama sem fazer movimentos bruscos, não queria acordar minha musa, a beleza em estado puro. No celular, nenhuma notificação de mensagem, nenhum alerta de chamada perdida, nada. Achei ótimo. Pena não ter uma dizendo que Ísis desistira da viagem.

Durante o café da manhã conhecemos um casal de baianos. Ele, poeta, contou-nos um pouco de suas aventuras pelos caminhos de Santiago de Compostela que virou livro de poesia. Foi um relato divertido. Depois, convidou-nos a visitá-los em Salvador. Aproveitei a deixa e perguntei a Tigresa se ela topava, na expectativa da resposta ser positiva. Um simples sim me daria a certeza de continuar tendo-a como companheira, amante, esposa, sei lá. O importante é que estaríamos juntos. Um simples sim, simples assim, me tornaria o homem mais feliz da terra. Sensação babaca, eu sei, mas, naquele momento, puxa, naquele momento era tudo que queria, continuar no paraíso, continuar babaca, apaixonado. Mas, ilusão dura pouco. Tigresa não respondeu. Apenas sorriu. Um sorriso de nem sim, nem não. Mais para não, o que me entristecia. O poeta, percebendo minha frustração, tentou me ajudar voltando a falar de seu percurso iniciático e das descobertas que fez ao viver novos desafios, pisando em solos desconhecidos. “Tá tudo lá no meu livro”, disse no seu jeito baiano de ser. Aproveitei a deixa e fiz-lhe perguntas sobre o livro, tipo de poesia, essas coisas, não porque estivesse de fato interessado, mas sim porque era a única maneira de sair daquela situação constrangedora. Estava frustrado, triste, desolado e tudo por causa de uma pergunta estúpida. De um desejo. Que idiota!

À tarde, sentamo-nos confortavelmente na tenda da Flip. O movimento reduzira-se drasticamente no último dia. Até então faltavam cadeiras para tanta gente. Muitos acompanhavam a projeção desde a praça, em frente, de pé. Agora sobravam lugares. Das mesas que assisti, naquele domingo, o mais estarrecedor foi ouvir da atriz Iara Jamra que o monólogo O Caderno Rosa de Lori Lamby, de Hilda Hilst, causa mais estranhamento hoje, mais rejeição moral, que nos anos 90 quando foi encenado pela primeira vez. Tema, aliás, que permeou boa parte de minha conversa com Tigresa enquanto caminhávamos.

Na Casa do Desejo, o ambiente também era de fim de festa. O movimento agora era de desmontagem. O pessoal corria de um lado para o outro encaixotando livros, desmontando estandes. Alguns curiosos circulavam no meio da bagunça, sem, contudo, atrapalhar o movimento febril, mas discreto do pessoal. Sem nada a fazer, preferimos sentar na mureta, em frente. Acendi um cigarro e, meio acanhado, aproximei-me do rosto de Tigresa, olhei-a nos olhos e disse:

− Me perdoe se insisto, mas preciso saber... Quem é você? A gente se conhece há quatro dias. A gente transou. Transa. Se gosta. Isto é, eu gosto de você. Te amo. Sei lá. Não sei nem como dizer isso. Só sei que não quero te perder e até agora nada sei de você. Nem sei seu nome!

Ela pegou o cigarro de minha mão, deu uma baforada, devolveu-me e começou a rodopiar e cantar uma estranha melodia:

Talvez eu seja
O sonho de mim mesma.
Criatura ninguém
Espelhismo de outra
Tão em sigilo e extrema
Tão sem medida
Densa e clandestina
(4)

Depois, aproximou-se, deu-me um longo e delicioso beijo de língua, que me levou às nuvens, e saiu:

− Já volto.

Puxei-a pelo braço:

− Vamos comer um lanche?
−Tincontro lá.

Fui até o carrinho de salgados e guloseimas ao lado da Casa do Desejo, em frente a uma antiga igreja, hoje museu. Examinei os salgados, pastéis e empadas de frango e carne, doces feitos com nozes e passas e, para ganhar tempo, esperando por Tigresa, fazia perguntas de todos os tipos ao casal que, uniformizados, respondiam com a cortesia aprendida no curso de treinamento da empresa. Tigresa não chegava. Estava para desistir e ir em sua busca quando meus olhos foram vedados. Levei um susto, mas dessa vez a reação foi rápida. Assim que aquelas mãos tocaram meu rosto, soube que não eram de Tigresa, ainda que fossem mãos de mulher. Segurei-as firme, afastei-as e me virei. Era Ísis.

− Que... que... vo... vo... ce tá fazendo aqui?!
− Ué, não falei que viria? Tô aqui. Não está contente em me ver?

Ela me abraçou, tentou me dar um beijo na boca, desviei. Beijou-me o rosto. Santo Deus! Que situação constrangedora. O que eu faria se Tigresa aparecesse? Quanto a Tigresa, não me preocupava. Talvez se abalasse um pouco, mas entenderia. E Ísis? Esta faria um escarcéu. Dos grandes. Sabia que ela estava ali para me vigiar, para ter certeza de que não arrumara outra. E a gente nem é casado, nem nada. Cacete! Que mulher chata. Como posso me livrar dela? E não parou de falar, animada. Estava ali, em viagem de negócios, para tratar de uma futura parceria com os organizadores da Flip, evento que cresce a cada ano e a chance de se ganhar dinheiro aumenta. Negócio da China, dizia animada enquanto minha atenção estava voltada para a Casa do Desejo, na esperança de que Tigresa, a essa altura, não aparecesse. Depois, mudou o tom da conversa. Acariciou meu rosto, fez cara de Madalena arrependida e disse lamuriosa;

− A gente tem tanto a conversar, benzinho – parou por aí, afastou-se e, mudando o tom, disse, com voz firme, voz de executiva – Vou até o auditório central. Preciso checar o horário da entrevista com a curadora e volto já. Onde te encontro? − e sem me dar tempo de responder, continuou − Espere aqui. Não demoro mais que dez minutos – e saiu.

Respirei aliviado. Agora era procurar Tigresa e dar o fora dali o mais rápido possível. Dobrei a rua em direção à Casa do Desejo, quase correndo. Tigresa estava sentada à porta, conversando com uma garota. Meio ofegante, preocupado, sugeri que saíssemos. Ela estranhou a pressa, pediu-me que sentasse e aguardasse o fim da conversa. Sem demonstrar minha contrariedade, sentei e mantive-me atento, receando que Ísis aparecesse a qualquer momento. Terminada a conversa, Tigresa sugeriu que fossemos comer aquele lanche que eu a convidara. Fiquei indeciso. Demorei a responder. Perguntou se tinha perdido a fome. Disse que não. Que sim, poderíamos ir comer, mas, se ela preferisse tinha lugares melhores para lanchar. Não. Ela queria experimentar os salgadinhos daquele quiosque em frente ao museu. Tinham lhe falado que valia a pena. Sem outra alternativa e com o cu na mão topei a parada. Pouco antes de chegarmos, Tigresa sussurrou-me no ouvido:

O melhor é não ver
O aço que cerceia.
E inútil sonhar
Que desfazendo o fio
Da tua teia
Há de ser livre o andar.
(5)

Antes de chegarmos ao quiosque, alguém a chamou. Ela pediu que eu fosse à frente. Não me importei, apesar de preocupado pela possibilidade de Ísis aparecer a qualquer momento. Olhava ansioso em redor. Tigresa estava demorando. Pensei em comprar dois salgados de frango – será que ela come frango? −, suco de laranja e embalar para viagem. Assim, poderíamos comer e, ao mesmo tempo, cair fora dali. Andar na orla. Sentir a maresia e, principalmente, estar distante do perigo. Esperei mais alguns minutos. Tigresa não aparecia. Fiz o pedido, paguei e saí em sua procura. A Casa do Desejo estava às moscas, quase ninguém. A desmontagem estava prestes a terminar e as duas pessoas que vira conversando com Tigresa haviam ido embora. De Tigresa, nem sinal. Sentei na mureta em frente. Coloquei a embalagem do meu lado e acendi um cigarro. A todo momento, olhava em volta, esperançoso. Com poucos carros estacionados, nenhum trânsito, um ou outro turista, não haveria como ela desaparecer sem que eu visse. Meu peito começou a se comprimir, a respiração a ficar curta, o suor a escorrer. Um jovem passa, de bicicleta, ouvindo uma música em volume alto:

Esqueceeeeer não, me perder não
Estrela, ê, na praça negra da selva
Gota de luz sobre a relva
Meu bem querer
Lua Sol, ê, centro do meu pensamento
Meu canto dentro do vento
Busca você
(6)

Um cutucão em meu ombro trouxe-me de volta à realidade. Ísis, de novo! Ela sentou-se ao meu lado, pegou a embalagem, abriu-a:

− Hummm. Você é um anjo. Comprou um lanchinho para mim – pegou uma empada, deu uma mordida, mastigou e exclamou – e de frango! Do jeito que gosto, sem requeijão – e continuou comendo.

Eu queria morrer.

Ísis abriu a garrafa do suco e, entre um gole e outro, mastigava e falava. No começo, de seu entusiasmo pelas negociações, depois, a conversa mudou de figura. Começou a ser mais íntima. Sua voz ganhou tom de lamúria, chorosa. Conhecia a figura e sabia o que vinha pela frente. Não deu outra. Confessou seu arrependimento em ter me abandonado, que eu era o único a compreendê-la, que não poderia viver sem mim e por aí vai. Resolvi dar um basta. Confessei que havia encontrado outra pessoa, que estava apaixonado e que nossa relação havia acabado há muito tempo, sem chance de retorno. Ísis ficou histérica. “Você não pode fazer isso comigo, você é meu. Corto seu pinto, seu filho da puta. Traidor” falava cada vez mais alto. Por sorte, as poucas pessoas presentes estavam distantes, ocupadas na desmontagem da Casa, sem chance de ouvir as baixarias. No auge do nervosismo, Ísis exigiu que eu lhe apresentasse Tigresa. Eu, meio acuado, na tentativa de arrefecer sua língua ferina, falei sem pensar:

− Não se preocupe, logo ela aparece. Deve estar por aí
− Como, deve estar por aí?! O machão não sabe onde anda a mulherzinha não, é?
− Na verdade, a perdi. Ela sumiu – falei ríspido, sem me dar conta de que jogara mais lenha na fogueira. Na hora nem percebi, mas Isis, feito detetive, fez mil perguntas e me enredou. Acabei falando do desaparecimento misterioso de Tigresa, reiterei minha paixão por ela e minha esperança em reencontrá-la. Desceria aos infernos, se preciso fosse. Terminei de falar, ela riu e disse:

− Cara, você flipou! – e saiu sem olhar para trás. Deu alguns passos, parou, virou-se e gritou:

– Sua crônica é uma merda!


Referências:

(1) Hilda Hilst. Da poesia. SP: Companhia das Letras, 2017, pág. 92
(2) Hilda Hilst. Idem, pág. 30
(3) Ouro de tolo, de Raul Seixas, álbum Krig-há, Bandolo, 1973.
(4) Hilda Hilst. Ibidem. pág. 386
(5) Hild Hilst. Ibidem, pág. 107.
(6) Caetano Veloso. Gema. Álbum Outras Palavras. 1981

 


Cesar Carvalho escreve prosa, Toca Raul (2014), e poesia, Proesia (2013); Lavras ao Vento, pá (2017) e Curto-circuito (no prelo). Contato: [email protected]