Edição 218 - Brasília, 12 de agosto a 09 de setembro de 2018

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Educação

Consciência política
Velhos sabotadores da democracia

Por Marcos Fabrício Lopes da Silva

Em artigo publicado no Correio Braziliense, de 31/01/2016, a jornalista Ana Dubeux defende a seguinte tese de comportamento: “Formar um cidadão consciente exige educação desde o berço. É necessário que se cresça sabendo que há regras importantes a serem cumpridas e que há punições previstas para quem não fizer o mínimo necessário para uma vida em comunidade”. De fato, o que também temos são políticos e partidos manhosos, dispostos a tudo, que se aliam a qualquer um. Temos, isso sim, uma das elites econômicas mais corruptas e mesquinhas do planeta. A sociedade que resultou da mistura do índio e do negro oprimidos e de uma minoria europeia branca e aventureira é esta. Não é a melhor, nem a pior. É o que somos — o homem cordial, notado pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda, individualista, avesso à hierarquia, arredio à disciplina, desobediente a regras sociais e afeito ao paternalismo e ao compadrio.

Se fosse ouvido com atenção e compreendido, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos mudaria o futuro do país de forma simples e efetiva. Disse ele: “A educação popular só é necessária porque a outra educação é antipopular. Sempre foi assim, mas não tem que ser assim até o fim”. Sob esse aspecto, quem sai prejudicada nesse processo é a nossa consciência política. Um dos grandes problemas com os políticos brasileiros é que eles, depois de eleitos, acreditam ser possível seguir adiante sem o aval dos cidadãos, principalmente dos eleitores. A maioria simplesmente vira as costas para o populacho. Tranca-se em gabinetes refrigerados em confabulações infindas de toda ordem travadas apenas com gente do mesmo status. Ao verem-se cingidos pela aureola tênue do poder, acreditam piamente ter entrado, para sempre, num mundo novo, onde vão pairar acima dos demais por um bom período.

Postos na confortável torre de marfim, passam a se sentir verdadeiramente “no céu”. Ocorre que, apartados daqueles que, de fato, o alçaram ao cume, perdem o ponto de referência, mas, ainda assim, não se dão conta e prosseguem, falsamente libertos. Como a vida boa parece escorrer ainda mais ligeira, apenas por ser boa, passam a utilizar grande parte do tempo de mandato no garimpo de novos veios que possam reconduzi-los ao céu. Como o caminho que leva ao paraíso, tem que passar, necessariamente primeiro pela terra e pelo eleitor, nosso político volta a calçar, temporariamente, as sandálias da humildade e a correr atrás do voto.

Lamentavelmente o mundo político costuma ser contaminado pelo fundamentalismo econômico. Todas as nossas atividades giram em torno do dinheiro. Era do business. Time is money. Do lucro exorbitante. Da desigualdade social alarmante. Do império dos bancos. Era na qual apenas oito homens dispõem de renda superior à soma da renda de 3,6 bilhões de pessoas, metade da humanidade. Era na qual tudo tem valor de troca, e não de dom. Esse fundamentalismo submete a política à economia. Elege-se quem tem dinheiro. Todo o projeto político é pensado em função de ajuste fiscal, redução de gastos em programas sociais, cortes orçamentários, privatização do patrimônio estatal, redução da dívida pública.

A política não é intrinsecamente nefasta. Nefasto é o modelo político que sabota a democracia, privilegia a minoria rica, e nada faz de eficaz para promover a inclusão social. Ao contrário, permite ampliar a exclusão e reforça os mecanismos, inclusive repressores, que impedem os excluídos de avançarem da margem para o centro. Todos os grandes mestres espirituais foram políticos. Buda se indignou ao transpor as muralhas de seu palácio e se deparar com o sofrimento dos súditos. Jesus, na versão de sua mãe, Maria, veio para “derrubar os poderosos de seus tronos e exaltar os humildes, despedir os ricos com mãos vazias e saciar de bens os famintos” (Lucas 1, 52-53). A política diz respeito ao outro, ao próximo, ao bem-estar da coletividade. Repudiá-la é entregá-la às mãos daqueles que a transformam em arma para defender apenas os próprios interesses.

Há múltiplas maneiras de fazer política, seja por participação, seja por omissão. O modo mais universal é o voto, uma falácia quando o povo vota e o poder econômico elege. Os eleitores decidem quem administrará o país, mas não como os recursos da nação serão utilizados. Se não há democracia econômica, se a desigualdade se agrava, a democracia política é uma farsa. De que adianta a Constituição, uma carta política, proclamar que todos têm direito a uma vida digna se a estrutura socioeconômica impede a maioria de desfrutar de fato deste direito? A despolitização da política é uma artimanha para impedir a população de ter consciência de classe e assumir seu protagonismo histórico. O ser humano ainda não encontrou forma melhor de se organizar em sociedade fora da atividade política. Como observou Aristóteles, ela é inerente à nossa condição de seres sociais. Política diz respeito à coletividade, ao bem comum. Historicamente tem sido apropriada para servir a interesses pessoais e corporativos.

O eleitor terá que fazer muito esforço para discernir candidatos e propostas, consciente de que nem tudo que reluz é ouro. Diante do quadro eleitoral, terá como ponto de partida a resposta a esta pergunta: votarei para melhorar a vida do povo brasileiro ou em função de meus interesses pessoais? A resposta define o perfil ético do eleitor. Aqueles que votarão tendo em vista seus negócios e ambições haverão de eleger os de sempre: corruptos, nepotistas e candidatos da bancada do B (bola, bala, boi, banco e Bíblia). Já os que votarão para aprimorar nossa democracia devem estar atentos ao programa dos partidos e candidatos, à vida pregressa dos que esperam seu voto, aos vínculos que efetivamente os aproximam dos movimentos sociais progressistas.


Marcos Fabrício Lopes da Silva é professor da Faculdade JK, no Distrito Federal. Jornalista, formado pelo UniCEUB. Poeta. Doutor e mestre em Estudos Literários pela UFMG. Graduando em Letras pela UnB.