Edição 217 - Brasília, 08 de abril a 06 de maio de 2018

Youtube Twitter

Educação

Gestão autoritária da educação
Minoria próspera versus multidão inquieta

Por Marcos Fabrício Lopes da Silva

Ao lado da família e do meio social mais amplo, a escola é uma das esferas de produção de capacidade de trabalho. Por isso, é ela hoje objeto de tantas discussões e, mais, de propostas de reestruturação. Numa sociedade rasgada por contradições cada vez mais agudas, a escola não pode mais permanecer nas franjas dos mecanismos de controle social e econômico do sistema capitalista. Porém, quando se verificam esforços efetivos para a melhoria do ensino, estes são bastante localizados e pontuais, já que a demanda por força de trabalho com qualificações mais complexas não advém de todos os setores da economia brasileira, mas apenas daqueles setores que competem com os segmentos mais inovadores e produtivos da economia mundial. Mais uma vez, o sistema educacional se vê pautado pela heterogeneidade das demandas do sistema econômico. A diferença é que agora a diversidade de demanda quanto à qualificação da força de trabalho não é mais entendida e tampouco respondida em termos estritamente nacionais, mas mundiais. Com a crescente mobilidade do capital, a educação deixou de ser uma questão nacional. Daí a interferência cada vez mais incisiva dos organismos transnacionais.

Hoje, os investimentos diretos dos setores de ponta da economia dirigem-se majoritariamente para aquelas regiões onde a classe trabalhadora é capaz de realizar trabalho mais complexo, isto é, onde ela é potencialmente mais produtiva. As demais regiões vão recebendo os investimentos consoante a sua inserção na hierarquia em que se constitui a atual economia globalizada. Esta hierarquia estimula uma maior segregação da classe trabalhadora em âmbito mundial, dividindo-a em qualificados/não qualificados/estáveis/precários/autônomos/desempregados. No que diz respeito às formas de controle social, antes sob a responsabilidade do Estado, são as próprias empresas que as assumem cada vez mais. Já na década de 1930, preocupado com o radicalismo dos conflitos sociais, suscitados pela sociedade industrial, o psicólogo australiano e principal teórico da Escola de Relações Humanas, Elton Mayo (1880-1948), propunha que as empresas atuassem no sentido de promover a integração, o controle, a coesão e a cooperação social, uma vez que o Estado e a sociedade em geral mostravam-se impotentes para tanto.

Considerando a divisão internacional do trabalho, o Brasil continua sendo pensado como um país de economia predominantemente informal, especializada na produção de bens e serviços pouco complexos e de baixo valor agregado. Mesmo com o forte crescimento e criação de empregos durante o “milagre econômico” (1968-1973), em pleno regime militar, os salários foram achatados, e a distância entre ricos e pobres cresceu. A melhora na atividade econômica se explicava, à época, por uma conjuntura mundial mais favorável que permitiu crédito externo farto e barato. O país, por sua vez, criou regras que facilitaram a entrada de capital estrangeiro e investiu num programa de desenvolvimento do parque industrial, além de reformas estruturais. O crescimento foi acompanhado pela abertura de novos postos de emprego no mercado formal e da expansão do consumo interno.

Logo, o “milagre econômico” aconteceu principalmente regado a dinheiro internacional que aterrissou através da entrada de multinacionais que encontraram no Brasil um terreno propício para a expansão sob a tutela dos militares, e também por empréstimos advindos de fundos internacionais. Os altos índices de crescimento do PIB vividos enquanto a ditadura esteve instalada no país também não foram acompanhados de uma melhora nos indicadores sociais. Foi exatamente o oposto do que aconteceu. Além disso, como o governo militar fez uma escolha de investir maciçamente na industrialização, inclusive do campo, muitas pessoas decidiram abandonar o sertão com o sonho de tentar uma vida melhor na cidade, incentivando um êxodo rural sem planejamento e nunca revertido (segundo o IBGE, apenas 16% da população morava no interior do país, em 2010).

Os “anos de chumbo” foram lidos a contrapelo por José Paulo Paes (1926-1998), em “Seu metaléxico” (Meia palavra, 1973), onde o poeta paulista procurou empilhar palavras-valise que pudessem denunciar a mensagem que cada uma das palavras ocultava em sua forma de dicionário: “economiopia/desenvolvimentir/utopiada/consumidoidos/ patriotários/suicidadãos”. Em Novas Cartas Chilenas (1953), José Paulo Paes já problematizava o fato de que a sociedade brasileira se formou através de uma peculiar combinação de ambivalências muito cara às elites políticas e econômicas, que garantiram a falta de participação popular nas principais decisões: “Sejamos, na cozinha, escravocratas,/mas abolicionistas de salão:/a dubiedade é-nos virtude grata”, se lê em “O Segundo Império”; em “Cem anos depois”, por sua vez, prossegue o sarcasmo: “Vamos passear na floresta/Enquanto D. Pedro não vem./D. Pedro é um rei filósofo,/Que não faz mal a ninguém./Vamos sair a cavalo,/Pacíficos, desarmados:/A ordem acima de tudo./Como convém a um soldado./Vamos fazer a República,/Sem barulho, sem litígio,/Sem nenhuma guilhotina,/Sem qualquer barrete frígio./Vamos, com farda de gala,/Proclamar os tempos novos,/Mas cautelosos, furtivos,/Para não acordar o povo”.

O perigo de subordinar a educação à égide da economia de mercado é negar ou suavizar as relações problemáticas entre o capital e o trabalho, o que acaba estendendo os benefícios para uma “minoria próspera” em detrimento de uma “multidão inquieta”. “O sucesso como responsabilidade e o fracasso como culpa”, eis a teologia do Empreendedorismo. Esta, ao lado da Teologia da Autoajuda e a Teologia da Prosperidade, dita a visão de céu e inferno nos dias de hoje.

 


Marcos Fabrício Lopes da Silva é professor da Faculdade JK, no Distrito Federal. Jornalista, formado pelo UniCEUB. Poeta. Doutor e mestre em Estudos Literários pela UFMG. Graduando em Letras pela UnB.