Edição 217 - Brasília, 08 de abril a 06 de maio de 2018

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Música

Um artista e seus tempos
A caravana de Chico Buarque em São Paulo

Por Jeová Santana


Chico Buarque durante show da turnê Caravanas, em São Paulo

São Paulo, 11 de março de 2018. Primeiro a pontualidade. Depois, a entrada. Ao contrário da turnê de 2011/2012, quando vinha com seus passos “dez pras duas”, agora, como na de 2006/2007, quando a cortina levanta, ele já está em cena. Isso faz uma diferença enorme. Os primeiros minutos são de impacto. Ali está a cabeça do homem que, há 52 anos, pensa, por meio da música, sobre as trilhas individuais e coletivas, sobre o “inferno e maravilha” deste “Brasil brasileiro”.

Quando estamos assentados no quesito coração, vamos percebendo as linhas que norteiam a apresentação de Caravanas, seu novo trabalho levado ao palco, ao lado de crias mais antigas. Ao todo, são 30, que mapeiam um pouco do itinerário de quem está na “estrada há muitos anos”. Nessa direção, são as parcerias um dos destaques do roteiro. Diz que fez letras para músicas que gostaria de ter feito. A começar pelas de Tom Jobim. Depois Edu Lobo, Jorge Helder, Cristovão Bastos, Wilson das Neves e o caçula da galeria, o neto Chico Brown, na lírica e terna “Massarandupió”. O destaque a esse percurso faz com que ele quebre o rito monossilábico das turnês anteriores.

A reverência a um dos parceiros, Wilson das Neves, que saiu deste plano o ano passado, proporciona um dos momentos mais descontraídos. Ao empunhar o chapéu e lembrar o bordão do companheiro (“chefia!”) para cantar “Grande hotel”, ensaia uns tíbios passos de samba. É claro que o público delira, assim como quando se ouvem as eternas gracinhas do tipo “lindo”, “maravilhoso”, “te amo”, “case comigo” etc.

Outro ponto bacana é a costura do roteiro. A abertura, com “Minha embaixada chegou”, de Assis Valente, une-se, no aspecto samba e cronologia, a “Mambembe” e “Partido alto”, pois fizeram parte do lendário Quando o carnaval chegar (1972), trilha sonora do filme homônimo dirigido por Cacá Diegues. Na última, a novidade é a quebra do ritmo da melodia para que os versos ganhem tons de oralidade. Já o diálogo com outras matrizes artísticas, no caso Cuba, fica por conta de “Casualmente”, parceria com Jorge Helder, que mescla versos entre português e espanhol, e “Iolanda”, tocante criação de Pablo Milanés, vertida por Chico para o idioma pátrio, que se tornou uma das poucas músicas atribuídas a ele a vencer a linha “pop, rock e MPB” nos barzinhos da vida.

A mescla de recado crítico pelo viés da desavença amorosa fica implícita em “Desaforos” e “Injuriado”. Esta do disco As cidades (1998). Lá, como agora, há brechas para leituras que podem contemplar a estridência que vem das ruas, seja em quem pensou ser esta letra uma estocada em FHC por ter acusado o compositor de ser “tradicional”, seja ao se pensar na estridência de hoje, quando ele tem sido alvo de ataques por suas posições políticas: “Ouço dizer, mas deve ser mentira/ Nem a tua ira acredito que mereça/ Ou que vires a cabeça pra enxergar no breu/ Um vagabundo como eu”. Precisa dizer mais?

Outro encontro que remete mais diretamente ao social é a junção entre “A volta do malandro” e “Homenagem ao malandro”. Esta, do visceral Chico Buarque (1978), aquela da trilha sonora do filme musical “Ópera do malandro” (1985) dirigido por Ruy Guerra. É o momento em que o público, sob o aval do cantor, entoa o refrão que pede o fora do atual “mandatário” do país. É o máximo que ele concede ao pantanoso momento político que atravessamos. Assim, é pelo caminho de sua arte que oferece o conforto aos famintos de beleza e justiça. Para isso, combina o canto rascante da mulher abandonada de “Palavra de mulher”, com a mulher que foge ao controle do companheiro, deslumbrada pelos corredores urbanos em “As vitrines”. Expõe, também, toda a problemática dos amores inconciliáveis em “A história de Lili Braun” e “A bela e a fera. A primeira do musical “O corsário do rei” (1985); a segunda do “O grande circo místico” (1983), parceria definitiva com Edu sobre o emblemático poema de Jorge de Lima. Em seguida, “Todo o sentimento”, do disco Francisco (1987) e “Tua cantiga”, do novo disquinho. Ambas em parceria com Cristovão Bastos. Se a primeira enlevou a todos nós devido a versos derramados de emoção como “Depois de te perder/ Te encontro, com certeza/ Talvez no tempo da delicadeza/ Onde não diremos nada/ Nada aconteceu/ Apenas seguirei/ Como encantado ao lado teu”; a segunda colocou o músico no centro da roda viva das acusações descosidas e das tronchuras de um suposto “pensamento politicamente correto”, por causa dos versos em que o eu lírico leva, para o terreno das ações futuras, a superação dos sentimentos impedidos: “Quando teu coração suplicar/ Ou quando teu capricho exigir/ Largo mulher e filhos/ E de joelhos/ Vou te seguir”. Sinal dos tempos?

Outro momento de inclinação política é o bloco que engloba “Gota d´água”, “As caravanas” e “Estação derradeira”, esta emendada com “Minha embaixada chegou”. O conteúdo da primeira é uma forma de advertência na voz que resta do cantor. Nos seus poucos, mas cortantes versos, percebe-se que continuam pulsantes as mazelas brasileiras retratadas no musical de 1975, feito em parceria com Paulo Pontes para a Medeia, de Eurípedes. Assim, a “grande fogueira desvairada” continua acesa entre a “munição pesada” carregada por “Cidadãos/ Inteiramente loucos/ Com carradas de razão”. Esse cenário adensou-se ao longo do tempo e deságua em “As caravanas”, na qual há “A gente ordeira e virtuosa que apela/ Pra polícia despachar de volta/ O populacho pra favela/ Ou pra Benguela, ou pra Guiné.” A música perde um pouco da vibração do CD devido à ausência das cordas, mas a letra encaixa-se perfeitamente nos tempos tenebrosos que atravessamos. Na hora do primeiro bis, mais um recado: há novas ordenações para o tenso drama de “Geni e o Zepelim”. As pedras e bostas continuam sendo jogadas. Mas é preciso acreditar que o amor será o legado para “Futuros amantes”.

Por fim, duas notas: uma sobre a iluminação que tem um móbile como centro flutuante, amparado por cordas e por um jogo de luz vertical que produz belos efeitos. É claro que muitos detalhes nos escapam, pois o artista principal nos encandeia. A outra, sobre a banda, cuja formação estabeleceu-se na turnê de As cidades (1998/1999), que ganhou o auxílio luxuoso da bateria de Jurim Moreira após a partida de Wilson das Neves. É tudo muito centrado. Sem possibilidade de grandes arroubos em matéria de arranjo. Tudo a contento para que, no segundo bis, ouçamos uma vez mais a voz serena “deste artista brasileiro”. De repente, Chico Buarque sai de cena e nós ficamos, noite afora, catando a poesia que ele entornou no chão, no ar, no tempo.

 

Jeová Santana é professor adjunto da Universidade Estadual de Alagoas, produtor do programa “Mestres e Músicas” (Aperipê FM), mestre em Teoria Literária pela Unicamp, doutor em Educação e Ciências Sociais pela PUC-SP. Autor de Dentro da casca (1993), A ossatura (2002), Inventário de ranhuras (2006), Poemas passageiros (2011) e Solo de rangidos (2016). Contato: [email protected]