Edição 216 - Brasília, 04 de março a 01 de abril de 2018

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Crônica

Lugar comum
O acaso como criação

Por Lucas Parigi

Preciso escrever uma crônica para determinada matéria de meu curso.

Assuntos não faltam. Mas eu prefiro falar de não assuntos. Política é um assunto. Um baita assunto. Todos falam dela no Brasil, mesmo aqueles que dizem que a odeiam.

Falar do nada é um tremendo assunto. Rubem Braga era craque em assuntos-nada. Ficava olhando o mar lá do alto de sua cobertura. Uma onda que ia e vinha. Eis um assunto-nada que RB transformava numa obra-prima da crônica.

Ele descia uma rua movimentada no centro do Rio. Uma borboleta amarela que borboleteava sem compromisso. Rubens a seguia. Pronto: mais uma obra-prima.

Assuntos não faltam, bem como assuntos-nada. Mas existe ainda um recurso para definir o tema de uma crônica. Abrir um livro, apontar o dedo numa palavra ao acaso. Nesse caso, tem que ter sorte e uma boa pontaria. A palavra alvo da mira casual tem que render uma boa ideia.

OK. Vou tentar essa terceira opção.

Caminho até a estante. Fecho os olhos e tateio um livro. Essa etapa não está no manual dos grandes cronistas, mas eu acabei de inventá-la.

Então, toco nos livros e retiro um ao acaso. Dicionário filosófico, de Voltaire. Opa! Comecei bem. É uma obra inovadora. Nela, Voltaire explorou temáticas soltas, sem uma ordem ou hierarquia. Bem de acordo com aquilo a que me proponho: um mergulho no escuro.

Pressiono o dedo indicador num espaço qualquer de uma página do Dicionário. Olhos fechados. Respiração suspensa. Posso até ouvir o som do repicar de uma bateria imaginária.

Abro os olhos lentamente. Ergo o dedo. Vejo a palavra:

BESOURO.

Perfeito! Um besouro costuma andar por aí às tontas, sem plano de voo preestabelecido. Irei tentar escrever sobre esse inseto estranho que voa com asas escassas. Perfeito mais uma vez.

Não se trata de um assunto em nenhuma hipótese desprezível. O compositor russo Rimsky Korsakov compôs uma obra de difícil execução em sua homenagem: O voo do besouro. Quantos bichos na natureza mereceram tamanha honraria. Nunca ouvi falar, por exemplo, do voo do elefante. Ou do leão.

Ponto para o besouro.

Além do mais, um besouro tem uma tremenda importância na cadeia alimentar dos animais. É como vemos naqueles documentários com cara de paisagem do Discovery Channel. Um lagarto qualquer lançar sua língua ágil, zap!, na direção de um besouro. Era uma vez.

Se consultarmos uma enciclopédia, descobriremos uma montanha de informações sobre o besouro. Tipos. Cores. Odores. Origem. Vida útil. Mas para efeito desta crônica que tomou por base um tema ao acaso, essa pesquisa não interessa.

Não precisa ir tão longe e tão fundo para perceber que um simples e inofensivo besouro tem um valor inestimável. Sem ele, afinal, eu não teria escrito esta crônica.


Lucas Parigi é estudante de jornalismo e cronista casual.