Edição 216 - Brasília, 04 de março a 01 de abril de 2018

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Cinema

Minha tarde com Agnès Varda
Um encontro com a cineasta francesa

Por Carlos Alberto Mattos

Fotos: Arquivo pessoal do autor

O autor com Agnès Varda

Não se deixem enganar por esse título. Eu não passei uma tarde exclusiva com Agnès Varda. Não estávamos em nenhum resort ou sala privê. Era setembro de 2009 e nos encontrávamos, um pequeno grupo de gente de cinema, no quintal do casarão do Tempo Glauber.

O Festival do Rio estava lançando no Brasil o seu ensaio cine-afetivo As Praias de Agnès. Ao contrário do que fez agora, no jantar do Oscar, quando, impossibilitada de comparecer, enviou totens de papelão no seu lugar, Agnès veio pessoalmente dar uma força para o lançamento e uma canja para os seus muitos admiradores brasileiros.

O encontro no Tempo Glauber não tinha nada de oficial. Ela ficou uma tarde inteira à disposição de amigos que, em sua maioria, nunca vira antes. Eu era um deles. Aproveitei para cumprir um ritual de cinefilia.

E agora, uma pequena recordação.

Há muitos anos eu coleciono postais de cinema. Tenho alguns amigos e amigas que me trazem ou enviam postais colhidos em festivais internacionais. Uma delas é a cineasta Vivian Ostrovsky. Certa feita, Vivian me presenteou com um postal de Os Catadores e Eu autografado pela diretora: "para Carlos Alberto do Brasil, cordialmente, Agnès Varda".

Nove anos depois, eis-me sentado numa mesinha frente à pioneira da Nouvelle Vague. Saquei o postal e pedi-lhe que autografasse de novo. Ela olhou, espantada. Lembrou-se de Vivian, sorriu deliciada e apertou minha mão: "Muito prazer em finalmente conhecê-lo". E escreveu: "De novo nos encontramos no Rio de Janeiro. Saudações, Carlos A. Agnès V."


Cartão com o duplo autógrafo de Agnès Varda

De pronto, esse postal virou item sagrado da minha coleção. Recepcionada por Dona Lúcia e Paloma Rocha, mãe e filha de Glauber, a querida senhorinha estava à vontade naquela tarde. Tudo era gravado por uma câmera da equipe de Joel Pizzini. Agnès foi devidamente paparicada pelos fãs, falou de cinema, dos seus amigos brasileiros e sobretudo de gatos, uma de suas paixões. "Tenho uma casa cheia de gatos", contava enquanto fotografava o gato do Tempo Glauber.


Dona Lúcia fotografada por Agnès Varda

Quase nove anos se passaram desde então. O Tempo Glauber não existe mais. Dona Lúcia mudou-se para o céu. Não sei o que foi feito do gato. Mas Agnès, aos 89 anos, continua lépida e forte, preparando já o seu próximo filme, de cunho autobiográfico e centrado no seu método da "cine-escrita".

Torço para que ainda possa coletar um terceiro autógrafo no mesmo postal.

 


Carlos Alberto Mattos é jornalista e crítico de cinema.