Edição 215 - Brasília, 04 de fevereiro a 04 de março de 2018

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O poema que não foi escrito
O dia em que fotografei Mario Quintana

Por Luiz Eduardo Robinson Achutti

Fotos: Luiz Eduardo Robinson Achutti

Mario Quintana posa para foto, enquanto finge que escreve um poema

Conheci pouco o seu Mário como alguns o chamavam. Personagem adorável e solitário de Porto Alegre, escrevia no tradicional Jornal Correio do Povo, poeta maior, mas também tradutor discreto de grandes autores, como Proust, Balzac e Voltaire.

Figura muito visível nas tradicionais Feiras do Livro de Porto Alegre, como no caso aqui das fotos em preto e branco.


Mario Quintana numa das edições da Feira do Livro de Porto Alegre

Mário Quintana morava no antigo Hotel Majestic, no centro, muito perto da Caldas Jr., empresa proprietária do Jornal Correio do Povo.

Seu Mário, solitário e já com certa idade, precisou deixar o hotel já decadente no qual morava, que seria transformado num belo centro cultural da cidade, hoje Casa de Cultura Mário Quintana.

A comunidade mobilizou-se e o jogador ex-Inter, então o Rei de Roma, Paulo Roberto Falcão, deu guarida ao grande poeta num pequeno hotel de sua propriedade também no centro da cidade.

Foi lá que fotografei pela segunda e última vez Mário Quintana, que vivia sob os cuidados de uma atriz, minha amiga, sua sobrinha querida Helena Quintana.

Naquela tarde, quando participei como fotógrafo de uma entrevista, fiz algumas fotos meio sem me mover para não atrapalhar e não gostei de nenhuma, mesmo que existissem esses monitores das instantâneas fotos digitais de hoje. Então resolvi meio encenar uma. Ficcionar o real, como diria o falecido, meu querido diretor de Doutorado em Paris, o cineasta Jean Arlaud.


- Seu Mário, é nessa mesinha que o senhor escreve, não? O senhor se importa de fazer de conta que está escrevendo um poema para eu lhe fotografar?

Lá foi ele, fiz com flash, que detesto, depois sem flash, demorei um pouco, ele, impaciente, duas vezes me perguntou:

- Deu?

Só um pouquinho, seu Mário, disse eu, pensando: o que será que ele está escrevendo? Será que aproveitou para fazer um poema? O que estará escrevendo?

Ato continuo, ao dizer “obrigado, seu Mário”, corri e fui olhar aquela folha de ofício preenchida por caneta Bic. Fiquei maravilhado.

- Seu Mário, um poema que o senhor não fez, me dê de presente!

Ele adorável, pacientemente, respondeu: 

- Como é seu nome, meu amigo?

E escreveu: “Para o Achutti, uma lembrança do amigo velho.”


O poema que Quintana não fez
 

- Bah, muito obrigado!

Ah, sim, tinha um pequeno pôster do Chaplin numa das paredes. Tentei juntar os dois numa foto, mas não consegui. Sempre para mim foram seres parecidos.

 

Luiz Eduardo Robinson Achutti é Professor Associado IV do Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Mestre em Antropologia pela UFRGS, 1996 e Doutor pela Universidade de Paris 7. Como Fotojornalista trabalhou na Coojornal e Free para as sucursais do Jornal do Brasil e Folha de S. Paulo em Porto Alegre, anos 70/80.