Edição 215 - Brasília, 04 de fevereiro a 04 de março de 2018

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Jornalismo

Noite de terror
Livro conta a tragédia da boate Kiss

Por Júlia Lima

Foto: Divulgação

Fachada da boite Kiss, com homenagens às vítimas do incêndio de 2013

“Para quem perdeu pedaço de si na Kiss, todo dia é 27”.

É com esta frase que a jornalista Daniela Arbex começa um dos capítulos de seu novo livro Todo dia a mesma noite (editora Intrínseca). Com as palavras certas e muita humanidade, a autora descreve a noite de terror que chocou o Brasil em 2013.

Com o tempo, a tragédia caiu no esquecimento. Mas para a população de Santa Maria, que viveu de perto a noite do dia 27 de janeiro, as marcas jamais foram apagadas.

Depois do livro Holocausto Brasileiro, que acabou se transformando num grande sucesso editorial, Daniela Arbex passou dois anos escrevendo a história do incêndio da boate Kiss, ouvindo relatos de familiares, sobreviventes e pessoas que tiveram grande importância no resgate e cuidados das vítimas.

Localizada no centro de Santa Maria, naquela noite, a boate reunia universitários que tinham ido para se divertir, como o grupo de cinco amigas que foram comemorar o aniversário de Andrielle Righi da Silva.

A casa de shows ultrapassou a lotação normal. O incêndio que tirou 242 vidas foi provocado por sinalizadores soltos pelo vocalista da banda “Gurizada Fandangueira”, que tocava no local.
Após a tragédia, foi descoberto que naquela noite fatídica as vítimas da Kiss foram envenenadas por gás cianeto, o mesmo que provocou a morte de milhares de pessoas nos campos de concentração, durante a Segunda Guerra Mundial.

Durante o livro, a jornalista cruza as histórias das vítimas. Os relatos dos familiares e os detalhes de cada relato provocam emoção e empatia, fazendo com que o leitor se sinta íntimo de cada drama narrado.

A edição do livro homenageia cada um dos mortos, listando seus nomes no verso da primeira e da quarta capa, como se fosse uma lápide coletiva.

O livro esmiúça cada detalhe, cada movimento, desde as horas que antecedem ao incêndio até a sua consumação. O texto ágil mantém o leitor em suspenso do começo ao fim. Nada escapou. Os preparativos para a festa; a aglomeração de pessoas que tentavam sair com vida da boate; os trabalhos de socorro e resgate; a dificuldade de reconhecimento das vítimas pelos familiares.

O cenário era de guerra, com cenas impactantes para qualquer estômago. É o caso de Gustavo Calvin Cadore, que à época tinha 31 anos e era doutorando em Veterinária pela Universidade Federal de Santa Maria. Daniela Arbex compara a situação de Gustavo à da menina vietnamita Kim Puch, que se transformou numa imagem icônica da Guerra do Vietnã, ao correr nua por uma estrada, ao lado do irmão, com a pele aos pedaços, após o povoado em que morava ter sido atingido por um bombardeio americano. Assim Daniela descreve o drama do estudante gaúcho:

“Próximo a um poste de luz, conseguiu se enxergar pela primeira vez, percebendo que a pele de seu braço estava presa apenas pelo pulso.”

Alguns conseguiam fazer a identificação a partir de tatuagens e características da vítima. Foi desse modo que o corpo de Andrielle Righi da Silva foi reconhecido. Ela estava no chão ao lado dos outros no ginásio da cidade. A prima visualizou o piercing que a jovem de 22 anos usava no lado esquerdo do lábio.

Depois da noite de 27 de janeiro de 2013, a cidade de Santa Maria nunca mais foi a mesma. Médicos, enfermeiros e psicólogos que atuaram no atendimento das vítimas recebem tratamentos psicológicos.

Transcorridos cinco anos daquela noite fatídica, os familiares das vítimas ainda lutam por justiça. Na praça Saldanha Marinho, no centro de Santa Maria, os pais mantêm a Tenda da Vigília, cujo objetivo é manter a lembrança de seus filhos queridos. O ponto de encontro se tornou um símbolo da luta contra as marcas de uma perda irreparável.

 


Júlia Lima é estudante de Jornalismo no Uniceub.