Edição 215 - Brasília, 04 de fevereiro a 04 de março de 2018

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Ficção

Gabriel e os troianos
A história de uma ovelha perdida

Por Eduardo Sabino

Gabriel desapareceu. “Se ele voltar, será expulso”, a professora disse.

Olhei a mesa vazia no fundo da terceira fileira e desejei que ele estivesse bem. Gabriel aprontava bastante e ferrou comigo muitas vezes. Com bolinhas de papel, tapas na orelha e piadinhas sacanas. Mas também me convenceu a jogar futsal na escola. Por causa dele aprendi a fazer defesas impossíveis no gol, na educação física, e saía toda semana com a calça rasgada e o sangue escorrendo nos joelhos. Por causa dele aprendi que a dor muscular após o jogo, quando o corpo esfria, dói bem menos do que assistir às partidas sozinho na arquibancada.

No ano passado, tentou me colocar na seleção da oitava série. Ele sempre assumia a função de técnico e capitão do time da sala no torneio colegial. "Precisamos de um cara para fechar o gol. Essa vaga é sua." Meia dúzia de alunos na arquibancada assistindo nossas peladas no recreio e eu jogava como um peru afoito. O que dizer do ginásio municipal abarrotado de gente e com torcida organizada? "Nem fodendo, Gabriel. Arruma outro goleiro." Ele me olhou e sorriu, o nariz envergado de desprezo.

"Você é mesmo um cagão".

Achei que voltaria a me sacanear, por vingança, mas continuou me colocando no seu time na educação física e não disse mais palavra sobre o torneio. No final das aulas, descíamos juntos o morro da escola e íamos batendo papo na rua até chegarmos à sua casa, que ficava no caminho da minha. Quase nunca era só conversa. Ele ia infernizando a vida de outros colegas nossos, mexendo com as meninas, cuspindo nos cachorros que rosnavam nos portões das casas. Às vezes me obrigava a correr, quando batia campainhas ou gritava o Pimentão. O Pimentão é um senhor de uns cinquenta anos, muito perturbado, que mora com sua esposa. Todo mundo sabe que eles não regulam bem e a galera adora enlouquecê-los ainda mais gritando os apelidos que tanto odeiam: Pimentão e Vassourinha. Gabriel berrava e a gente corria. Antes de virar a esquina, eu olhava para trás e via o Pimentão saindo na rua de cabelo desgrenhado e machado em punho. Noutros dias, a gente ia soltando rojões nos bueiros ou tocando uma latinha amassada até cansarmos.

Gabriel sempre foi um menino complicado. Tudo o que nos incomodava um pouquinho durante a aula, punha fogo no rabo dele. Não sabia se controlar, pensava alto. Jogava tudo na cara dos professores. Tomava sermões, era expulso da sala, recebia advertências, suspensões. Perdi a conta de quantas vezes vi a sua mãe zanzando nos corredores do colégio, sempre com os problemas do filho entristecendo o rosto e desequilibrando os movimentos. Ou de quantas vezes trombei com a supervisora no corredor e ela me disse para não andar em má companhia.

Ninguém queria estar no lugar de Gabriel durante as broncas. Quando estava na sala da supervisora, no andar de baixo, podíamos escutar os berros, o que gerava incômodo e dispersão nas aulas. Os professores sentiam o clima e fechavam a porta.

Devo dizer, experimentei seu mundo, e isso me custou umas médias perdidas, aconselhamentos da supervisora – comigo ela pegava mais leve – e algumas horas de treino para imitar a assinatura da minha mãe na advertência. A meu favor, digo que um bocado de apresentações culturais no Sete de Setembro e a obrigação de estar reunido com as turmas na quadra esportiva sob um sol de quarenta graus, tornaram-me o sujeito mais influenciável do colégio.

Ouvi o apelo de Gabriel. Fomos para trás da escola. Um pequeno jardim, uma câmera em funcionamento, acoplada na parede, frente ao muro.

"Vamos lá. Não tem chamada. Ninguém vai notar nossa falta"

"E essa câmera aí?"

"Está passando agora na secretaria. Quando não tem ninguém lá, não tem erro. Pode ficar tranquilo. Ninguém assiste a fita depois"

Dito isso, ele tomou um impulso e saltou o muro. Na hora, jurei que poderia fazer o mesmo. Fervia no sangue uma boa dose de tédio acumulado das várias datas comemorativas do ano letivo. Mas travei.

Então vi a cabecinha do Gabriel, despontando do nariz para cima, no outro lado do muro.

"Anda rápido, caralho".

Ao longe, na quadra, veio o grito. Independência ou morte. Não o deixei esperando nem mais um minuto. Saltei o muro.

Também na área interna da escola, acompanhei Gabriel em algumas rebeldias. A mais famosa me custou a primeira advertência. Aconteceu quando o colégio aceitou reduzir o tempo do nosso intervalo. A greve dos professores tinha chegado ao fim, os conteúdos atrasados; precisavam compensar o tempo perdido. Eu e Gabriel atravessávamos o intervalo na fila da cantina. Quando recebíamos o rango, a professora de Matemática, atenta às novas regras, fechava a porta da sala. Um dia, não nos deixou entrar. No outro, entramos com o prato de canjica esfumaçando, a galera olhando assustada. Assistimos à aula no ritmo de colheradas lentas, produzindo sons irritantes de sucção e metal em porcelana. A bem da verdade, eu cagava de medo da professora, mas tentava simular a tranquilidade de Gabriel. Curiosamente, ela não nos expulsou. Fingiu que nada acontecia. Ao final da aula, chamou a supervisora, e saímos escoltados e de barriga cheia.

Antes do desaparecimento de Gabriel, demos uns rolés pela cidade e gastamos o dinheiro escasso que conseguíamos com nossos pais no único copo sujo da cidade que vendia bebida para adolescentes. Nele encontrávamos cervejas pilsen de baixo preço e qualidade ainda menor. Naquele lugar, o Bar do Tinoco, sentávamos e bebíamos até a vista tremer e a fala embolar. Duas garrafas eram o suficiente.

Eu gostaria de dizer que subíamos para casa cantando músicas bregas, como verdadeiros boêmios, mas a bebida deixava Gabriel um tanto sensível e melancólico. Ele subia praguejando contra a cidade, a escola e a família. As coisas não iam nada bem na sua casa. O pai e mãe nem se olhavam mais.

"O que rolou?"

"Traição, velho. Meu pai se encrespou com uma coroa aí e minha mãe descobriu."

Subia ouvindo sua voz fraca e sussurrante. Pensei que era apenas cansaço e sono, o relógio da matriz registrava 4 horas. Mas então Gabriel rompeu em choro e fiquei sem saber como reagir. Contou-me que na noite anterior o pai chegou em casa disposto a sacanear com a mãe. Bêbado, rindo alto, trazido de carro pela amante. Quando o homem atravessou a porta, Gabriel lhe deu um soco direto no nariz.

"Ele caiu no chão, de nariz quebrado, gemendo. Meu próprio pai, velho. Um soco forte. Não sei o que me deu. Sinto que a mão ainda está doendo. Uma dor que começa na mão e vai alastrando no corpo, sabe?".

A fala saía entrecortada por soluços. O assombro maior veio em seguida. "Você é meu único amigo", ele me disse, do nada. Eu, o cara que andava com ele há menos de um mês, seu único amigo. Fiquei sem chão, mas lhe amparei num meio-abraço até sua casa. Do jeito que ele andava, pisando em falso, logo cairia.

Na manhã seguinte Gabriel veio com o habitual sorriso diabólico, a boca murcha de ressaca. Disse não se lembrar de nenhum acontecimento após a dose de vodca que descemos junto com a saideira.

"Se eu disse alguma merda, cara, esqueça. Papo de bêbado."

Num outro fim de semana, Gabriel arrumou uma grana, sabe-se lá como, e entramos numa casa de show. Tocava uma banda cover de metal, as pessoas em convulsão na pista e desferindo pontapés fantasmas umas nas outras. Achei a minha camisa azul-marinho fora de contexto e tive vontade de ir embora.

"Relaxa, cara, vamos tomar uma."

Quando Gabriel teve de ir ao banheiro, encostei-me na parede e viajei tanto nos acordes do guitarrista que levei um baita susto quando ele voltou acompanhado de duas meninas. Já estava de mãos dadas com uma delas e me apresentou a outra.

"Conversa com ela aí, cara".

Disse isso, me deu uma batidinha no ombro e se mandou com a garota.

Cochichei no ouvido da menina e ela consentiu. Fomos para a varanda da casa, onde era possível conversar. Fizemos todas as perguntas bobas das conversas entre estranhos. Nome, idade, escola, bairro, estado civil, quase uma pesquisa de opinião. Então as perguntas básicas se esgotaram e o papo travou. Vi a garota com maquiagem forte e batom preto olhando os arredores, perguntando sobre Gabriel e a amiga, e notei que ela era tão introspectiva quanto eu. Para não ficarmos ali, naquele silêncio terrível, tentei beijá-la. Ela colocou as mãos nas minhas costas e quase suspiramos aliviados, um na boca do outro, como dois mergulhadores de primeira viagem trocando oxigênio. O beijo foi bom e longo e, quando terminou, senti a cueca úmida. A parte ruim foi o canino da garota enterrado na gengiva. Isso aconteceu no início do ano passado; eu tinha 15 anos e nenhum beijo na bagagem a não ser o daquela metaleira.

Era para ser a noite perfeita se Gabriel não tivesse se engalfinhado com um cara na pista de dança. O ex da menina com quem estava. Gabriel levava a melhor na briga, mas então dois caras rodearam a dupla e começaram a chutá-lo. As pessoas formaram uma roda maior e vibravam como se assistissem ao MMA. Senti uma energia monstruosa nas pernas e corri até eles. Quando cheguei, muita gente participava da surra, arrebentando Gabriel; e dois seguranças tentavam apartar a briga. Saí empurrando as pessoas, abracei Gabriel pelas costas, levantei-o no ar, levei um chute na perna e um soco nas costas, mas tirei-o da confusão. A pancadaria continuou, com novos alvos, garrafas se estilhaçando, enquanto descíamos a escadaria.

Subimos acabados pelas ladeiras da cidade. Eu, mais exausto do que ferido, uma dor na perna, um estalo nas costas e nada mais. Gabriel, indignado e moído: boca sangrando, olho roxo, manco. Falou o quanto pôde da covardia dos caras. Depois, não satisfeito, voltou-se contra mim.

"Aprenda uma coisa, velho. Você não pode entrar numa briga separando. Tem que entrar de soco ou voadora."

"Não sou de violência, cara. Além do mais, sinceramente...". Parei no meio do caminho.

"Sinceramente o quê? Pode falar."

"Se você está inteiro agora, porra, agradeça a mim".

Não agradeceu. Pelo contrário. Disse que estava se dando muito bem até eu chegar. Sempre se virou sozinho. Não precisava de ninguém.

Cuspiu de lado e dobrou imediatamente uma esquina, pegando o caminho mais longo para casa. "Você é um ingrato filho da puta!", gritei, quando ele se distanciava. Não me respondeu. Continuou subindo o morro, mancando à beça, e nem olhou para trás. Nos dias seguintes, nos afastamos. Com gestos bruscos, que depois foram se tornando rotina, virávamos o rosto em direções opostas quando trombávamos nos corredores e na sala de aula.

Queria saber onde Gabriel está agora. No jornal da cidade, estão dizendo que o viram pela última vez andando na BR-040, no acostamento, debaixo da tempestade da última quinta-feira. Com certeza pegou carona com alguém e agora está remando contra todos nós, afastando-se o máximo possível deste buraco.

Talvez decida viver fazendo caricaturas de turistas em alguma cidade litorânea. É muito bom nisso. Lembro de quando rabiscou um desenho do professor de História no quadro, pouco antes do homem chegar. O desenho expunha a mania do cara de tirar cera do ouvido com o dedo mindinho. Estava lá o gesto e o prazer evidente que o professor sentia fazendo isso. Claro, na obra do Gabriel, o prazer sutil se transformou num orgasmo de porco, com direito a borboletas ao redor da cabeça lisa. O professor se vingou como pôde, ferrando Gabriel com a supervisora e na arguição final do semestre.

A chibata comia nervosa no seu lombo e nos últimos tempos ele estava sozinho nas presepadas e retaliações. Obviamente, existiam outros desajustados. Mas com Gabriel sempre houve menos tolerância. A coisa desandava aos gritos cuspidos na cara, puxões no braço e na orelha. Um dia, a professora de Matemática foi além da conta na raiva. Mandou ele dizer, em voz alta, qual havia sido sua nota (um zero gigantesco). Gabriel nem ligou. Fingiu que não enxergava a nota, que a nota e a prova e a matéria eram coisas completamente insignificantes. A mulher se irritou: “Apenas leia a nota aí na ponta do seu nariz”. Ele encostou o nariz na prova. “Ainda não enxergo, professora”. Então veio a sequência inusitada: ela pressionou a cabeça de Gabriel contra a mesa, ele segurou o braço dela, afastou-a com um empurrão e a chamou de filha da puta.

“Repete o que disse, moleque”.

Ele tornou a dizer, com vontade e potência:

“Fi-lha da pu-ta!”

Só existia um professor com quem Gabriel se dava bem. O Wilson, de literatura. Um cara jovem, a cabeça fresca com essas novas ideias de educação. Conquistou a turma inteira sem muito esforço. Até o Gabriel. Imitava o Robin Williams na Sociedade dos Poetas Mortos e mandava todo mundo subir nas carteiras e declamar poesia.

Soube lidar com a ovelha perdida do colégio. Não parecia se incomodar com suas piadinhas. Ria muito e até as complementava. Gostava das respostas dele e lia suas redações para a turma. Gabriel correspondia. Comentava os assuntos da aula, fazia interpretações viajantes de trechos da Odisseia e da Ilíada e ganhava elogios do Wilson. Vez ou outra, eu observava os dois no intervalo, o Wilson falando baixo, gesticulando, certamente tentando colocar o menino nos eixos. Quem não gostava das aulas de literatura era a turminha da frente. O Anselmo, caxias da turma, queria fuzilar Gabriel na parede do fundão. Seu olhar de ressentimento dizia claramente que a atenção do professor estava no lugar errado. Gabriel era a estrela da educação física, o garoto-problema, não o intelectual da turma.

Não sei se conspiraram contra o Wilson ou se a sua metodologia não agradou a direção. Sei que cortaram a sua cabeça numa Semana Santa e após a Páscoa não houve ressurreição. Colocaram no seu lugar um bigodudo mala e disciplinador.

O interesse de Gabriel naufragou, e meu amigo voltou a ser o Robinson Cruzoé das aulas de literatura. Chamo-lhe amigo por afeto; nunca reatamos a amizade. Queria voltar a conversar com ele, admito, mas o orgulho e a insegurança não me deixavam tomar a iniciativa. Além do mais, quem devia pedir desculpas era ele.

O fato é que não chegamos a fazer as pazes, e agora Gabriel sumiu. Viajo na aula pensando se ele encontrará um lugar melhor, sem escola, função do segundo grau, análise sintática, professores sacanas e exercícios de múltipla escolha. Se ele vai mesmo viver dos seus desenhos e jogar futebol de areia na praia quando o sol estiver se pondo.

Que ele não volta, não volta. Meu avô dizia: a duração da viagem se mede na despedida. Dependendo do impacto, não tem retorno. Talvez por isso os suicidas deixam cartas emotivas, matam-se de um jeito impactante e se vão para sempre. Gabriel também caprichou na despedida, mas não deixou cadáver. Como ainda não recebi telefonema nem sms, deve ter me colocado no mesmo galho dos outros.

Entrou no colégio escondido, à noite, antes de partir. Sabemos porque deixou dois presentes: na mesa da supervisora e em nossa sala de aula. Com as lembrancinhas, um cartão: Carinhosamente, aos troianos. Parabéns, vocês venceram a guerra. Quando chegamos, o cheiro de merda era uma legião de soldados gregos abrindo caminho em nossas narinas. Os mosquitos sobrevoavam o achado. Muitos tiveram ânsia de vômito e uma garota mais delicada não se conteve e devolveu ao mundo o café da manhã.

Gabriel não está mais entre nós. Nem o pedaço de merda que ele nos deixou. Mas tenho a impressão de que algo ficou incrustado no chão, nas paredes e no teto. Mesmo com a porta aberta, a ventilação cruzada, ainda sinto o cheiro.

 


Eduardo Sabino é escritor, autor do livro Naufrágio entre Amigos (Editora Patuá, 2016), de onde foi retirado o conto acima. Venceu, em 2015, o prêmio literário Brasil em Prosa, organizado pelo jornal O Globo e a Amazon. É um dos criadores do programa de entrevistas Literatura no Boteco.