Edição 214 - Brasília, 07 de janeiro a 04 de fevereiro de 2018

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Viagem

Sete extravagâncias da Arquitetura
Os Emirados Árabes Unidos e Cingapura são a Disneylândia dos arquitetos

Por Carlos Alberto Mattos

Foto: Carlos Alberto Mattos

Disco de Abu Dhabi

Em dezembro último, fiz uma viagem inusitada, enfileirando os Emirados Árabes Unidos e Cingapura. Apesar da distância entre um país e outro (sete horas de avião) e das diferenças de raiz e formação cultural entre o Oriente Médio e o Sudeste Asiático, eles compartilham muitas coisas. Ambos são ex-colônias britânicas, terras de gente pobre e parcos recursos que, na segunda metade do século passado, saltaram para o ranking das nações mais ricas e desenvolvidas do mundo. Os EAU com os petrodólares e uma aposta febril na modernização urbana; Cingapura com a abertura para os investimentos estrangeiros e a consolidação de uma forte indústria de eletrônicos de ponta.

Os dois países se caracterizam também por um multiculturalismo plenamente integrado ao tecido social. Indianos, paquistaneses, chineses, malaios e europeus constituem o grosso da população. Em Dubai, a relação chega a ser de cinco estrangeiros para cada emirati (nativo). Um turista pode passar um mês naquela megalópole sem jamais ter contato com um só emirati, uma vez que todos os serviços são feitos por imigrantes. Outro aspecto comum é o senso de ordem e higiene cultivado nos mínimos detalhes. São famosas as punições para transgressões do gênero, o que se relaciona com o autoritarismo vigente no califado árabe e na democracia parlamentarista cingapurense.

Mas o que, à primeira vista, mais aproxima os EAU e Cingapura é o arrojo do urbanismo. Arranha-céus astronômicos, edifícios de formatos heterodoxos (em Abu Dhabi há um prédio com a forma de um disco), ilhas e penínsulas artificiais de desenho caprichado (em Dubai constroem um arquipélago nos moldes do mapa mundi). Os EAU são conhecidos como "a Disneylândia dos arquitetos", mas o epíteto caberia como uma luva também a Cingapura.

Vou comentar a seguir a sensação de estar em sete dessas construções icônicas.

Foto: Carlos Alberto Mattos

Vista do interior do Burj Khalifa, em Dubai, o prédio mais alto do mundo

1. Burj Khalifa

O prédio mais alto do mundo até o momento manda as demais torres imensas de Dubai para o divã do analista com complexo de inferioridade. Foi construído pela Samsung, inaugurado em 2010 e tem 160 andares. Diante dele, a gente se sente como num cenário de Blade Runner. Visitantes podem subir à plataforma de observação do 124º andar, de onde se vê a cidade de uma altura de 442 metros. É uma boa maneira de vislumbrar os empreendimentos que avançam pelo mar, como a Palm Jumeirah e o arquipélago The World.

Milionários têm condições de arcar com o custo adicional para subir até o andar 148, onde desfrutam de lounge, coquetéis e todo o luxo que o dinheiro pode comprar. Como tudo nos EAU, o Burj Khalifa também é escalonado de acordo com o poder aquisitivo do freguês. No edifício funcionam escritórios e um hotel Armani. Os comuns dos mortais passam pelos elevadores diretamente para os mirantes e depois retornam ao rés do chão para uma realidade que, em Dubai, nunca é prosaica.

Foto: Carlos Alberto Mattos

Palm Jumeirah em Dubai

2. Palm Jumeirah

Do modelo emirati de avançar a urbanização para dentro do Golfo Pérsico em vez do deserto no lado oposto, a península em forma de palmeira foi o primeiro projeto a ser finalizado em Dubai. Construída entre 2001 e 2008, é uma área residencial, de lazer e entretenimento. O acesso pode ser feito de carro ou num fantástico vagão monorail que percorre o "tronco" da palmeira até a beira-mar. A extremidade é dominada pelo imponente hotel Atlantis e um parque aquático.

O trajeto do monorail permite ter uma noção de como são as "folhas" da palmeira: faixas urbanizadas em estilo árabe contemporâneo e densamente arborizadas, em contraste com a paisagem de concreto dominante em Dubai. A aproximação gradual do Atlantis e do golfo, combinada com o skyline da cidade do outro lado, é uma visão de tirar o fôlego.

Foto: Carlos Alberto Mattos

Interior do Ibn Battuta Mall em Dubai

3. Ibn Battuta Mall

Os shopping centers de Dubai fazem de tudo para lhe agradar. São enormes, perfumados e decorados suntuosamente. O Dubai Mall, tido como o maior do mundo, tem até um aquário gigante voltado para os passantes e uma pista de patinação no gelo. O Mall of the Emirates ostenta uma pista de esqui indoors com neve, teleférico e temperatura de inverno europeu. Mas o que me espantou de verdade foi a concepção do Ibn Battuta Mall.

Batizado com o nome de um explorador marroquino do século XIV, o shopping está dividido em seis áreas temáticas quanto à ambientação: Índia, China, Egito, Pérsia, Tunísia e Andaluzia. Do piso ao teto, cada setor reproduz padrões arquitetônicos e decorativos da respectiva região, completo com arcadas, frisos, luminárias, "ruas", pagodes, etc. As lojas são o que menos importa, pois não creio que exista shopping mais bonito em qualquer outro lugar.

Foto: Carlos Alberto Mattos

Grande Mesquita do Sheikh Zayed em Abu Dhabi

4. Grande Mesquita do Sheikh Zayed

Uma das construções mais inefáveis que já visitei, a Grande Mesquita de Abu Dhabi combina elementos de Marrocos, Egito, Irã, Turquia, Espanha e Índia na arquitetura e decoração. A lembrança do Taj Mahal é imediata. Por fora, é uma belíssima e alva ondulação de cúpulas, arcos, colunatas e minaretes. Por dentro, é esplendorosa com suas paredes incrustadas de mosaicos de pedras preciosas, seus lustres de cristais coloridos e, no salão principal, um tapete persa de 5.600 metros quadrados, o maior do mundo.

À noite, a iluminação lança uma pátina azul e dourada sobre a mesquita, que se reflete nos espelhos d'água ao redor. É fundamental visitá-la à tardinha para ver essa transformação se processar sob uma lua que parece escolher aquele cenário para também se exibir. À exceção das sextas-feiras, a mesquita funciona basicamente como atração turística. Nas cerca de quatro horas que passei ali, não presenciei orações, mas somente os chamados dos muezzin nos alto-falantes, como em qualquer parte da cidade. A diferença é que, naquele local, os cantos de "Allah akhbar" soam mágicos de uma maneira especial.

Foto: Carlos Alberto Mattos

Louvre de Abu Dhabi

5. Louvre Abu Dhabi

Abu Dhabi, capital dos Emirados, tem planos de se tornar uma meca dos museus. Projetos de um Guggenheim e de um Zayed National Museum em convênio com o British Museum têm sido sucessivamente adiados. O primeiro a ser inaugurado foi o Louvre, em novembro último. Localizado numa ilha artificial, o museu desenhado pelo francês Jean Nouvel se constitui de um aglomerado de blocos brancos sob uma imensa cúpula perfurada pairando sobre as águas do Golfo Pérsico. Caminhamos por entre as salas como numa medina árabe, pisando nos desenhos de luz natural e defrontando-nos aqui e ali com o mar. Nouvel escolheu uma altura máxima de apenas 30 metros para contrastar com a obsessão das cidades emiratis em arranhar o céu.

A exposição permanente (por pelo menos 30 anos) reúne obras de várias regiões do mundo e estão dispostas por épocas, visando oferecer uma síntese horizontal da evolução das artes nas diversas civilizações. De múmias egípcias a Warhol, de estatuetas africanas a Picasso, de vasos etruscos a DaVinci – a ideia de mostrar "um pouco de tudo" pode parecer coisa de novo rico, mas exerce função didática importante num país que não tem tradição nesse tipo de exposição. De resto, é um espaço amplo, clean e arejado que se integra com naturalidade à paisagem espraiada da cidade.

Foto: Carlos Alberto Mattos

Mercado Central de Sharjah

6. Mercado Central de Sharjah

O pequeno emirado de Sharjah fica a 15 minutos de carro do centro de Dubai. Entre suas principais atrações está um fabuloso Museu da Civilização Islâmica e o Mercado Central, também chamado de Mercado Azul por conta da decoração externa com mosaicos de azulejo. O conjunto de dois edifícios ligados por diversas passarelas foi construído nos anos 1970 no estilo dos antigos bazares árabes: corredores arqueados de pé direito altíssimo e 20 típicas torres de vento, empregadas na ventilação de interiores.

As torres são mero adorno, uma vez que o potente ar condicionado afasta qualquer calor. Ao turista interessa menos o segundo andar, dedicado à venda de pashminas, souvenires, eletrônicos e utilidades domésticas. A grande curiosidade é o térreo, onde se alinham joalherias resplandecentes. Após o anoitecer é quando as mulheres emiratis saem às compras. Por baixo de suas burcas perfumadas, adivinham-se lingeries da adorada Victoria's Secret. A paixão árabe pelo ouro e as joias é saciada nos inúmeros balcões e vitrines daqueles pequenos palácios comerciais.

Foto: Carlos Alberto Mattos

Marina Bay Sands em Cingapura

7. Marina Bay Sands

Um dos marcos arquitetônicos da moderna Cingapura, o misto de hotel, shopping e cassino Marina Bay Sands escraviza os olhares de quem circula ao redor da baía. São três prédios coroados por uma espécie de barco. No topo, os hóspedes do hotel desfrutam de uma fantástica "piscina infinita" com vista de 360 graus para a cidade e até a Malásia. Quem não tem cacife para tanto pode subir à plataforma de observação ou ao bar Ce La Vi para ter o mesmo panorama. À noite, a visão é extasiante.

A área do MBS é exemplar da maneira como Cingapura busca conciliar serviços, entretenimento, consumo e cultura. O complexo incorpora diversos restaurantes de alta classe, dois teatros e o Museu de Arte e Ciência. Em frente ao edifício triplo fica uma ofensiva loja da Louis Vuitton em forma de pirâmide pousada sobre o mar. Do outro lado estão os Gardens by the Bay, um parque onde não bastam as árvores naturais. Palmeiras artificiais gigantescas traduzem a tendência megalomaníaca desse neocapitalismo ostentatório.

 

Carlos Alberto Mattos é jornalista e crítico de cinema.