Edição 213 - Brasília, 08 de outubro a 05 de novembro de 2017

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Ficção

O livro de Lúcia
Como o impacto de um martelo

Por Paulo Lima

Livros.

A vida de um editor gira em torno deles. Daí que Mary dorme e acorda pensando neles. É uma obsessão que preenche as 24 horas de seu dia. É o que se pode chamar de editora que escreve. Mas esta não é uma relação simples de causa e efeito. Bons editores nem sempre são bons escritores. Va bene! Pode gerar livros corretos. Mas...

Contudo, isto, sim, bons editores forçosamente precisam ser bons leitores. Precisam contar com esse faro que os distingue e salva.

Fronteiras tênues. Mary é leitora contumaz e compulsiva. De bem antes de abrir a editora. Gosta de se autodefinir como uma mulher com cabeça, tronco e livros.

Herança materna. O pai, porém, bronco. Casal que não deu certo. A antítese de temperamentos. Vive la difference! A ironia. Seu casamento também não vingou. Como uma boa história que arrefece depois de um começo assim: uau!

Ela é caladona, tipo leitora compenetrada que deixa a panela queimar e o mundo continuar girando sem que ela dê a mínima. Precisava que o marido avisasse: escureceu... vai estragar a vista.

Como não teve filhos, é dona de seu nariz.

Inimiga de relógio, o sonho de tocar o próprio negócio. A ponte entre o útil e o deleite. Vinte e cinco anos. Determinada. Torrou o único patrimônio: o carro. Presente da mãe para não ter de encarar o pedregulho de ir e vir de ônibus para a faculdade de Letras.

Investiu na editora.

Primeiros meses ali. A despeito da pretensão do nome, funcionava mesmo era no apê. Uma editora entre tantas nanicas do mercado. Mas com muito amor envolvido. A esperança de um bom passo editorial, um livro na lista dos mais vendidos - e bingo!

O boca a boca dos amigos escritores. Os primeiros originais chegando. Dava pra bater na trave. Pagar as contas básicas. Ir tocando.

O próprio livro engavetado. Nada de advogar em causa própria. E, além do mais, e a autocrítica ferrenha? Dolorosa? Diria, autodestrutiva? Ainda que com os tapinhas – indulgentes? – dos amigos. Mas ela não entrava nessa. Já lera montanhas e sabia quando a coisa pega você e arrebata você de jeito e vai no seu ponto G. Pegava-se imaginando a emoção que se apossava de um editor que, depois de uma espera de anos, topava com o grande livro. Podia vê-lo estreitar os olhos premidos pela desconfiança e incredulidade de estar diante de um troço bom, diferente, original, do cacete! Seu coração pulsando desordenado, a ponto de parar. Um sentimento que só quem passou é que sabe.

E aí destrambelhava, os sonhos num mergulho desparafusado. Max Perkins lendo pela primeira vez o original do Gatsby de Fitzgerald. E descobrindo o velho Hemingway. E Tom Wolfe.

Vem pra mais perto, bebê, de pertinho, nesse tempo agora. Pense em Jorge Herralde depois de pôr um ponto final na primeiríssima leitura dos Detetives Selvagens de Bolaño. Nunca nada como aquilo. A erupção do gênio em big close dançando na sua cara. E tudo que Harralde deve ter dito, seu eureca anunciando o veio de ouro: Carajo!

Mas, delira, baby, delira...

Ela queria ao menos que um desses talentos do underground, que sabia existirem por aí - quem sabe bem ali, na esquina-, acertasse sua caixa postal como um martelo. Mas eles ficam insistindo num boom e tomam um nein das grandes editoras.

Ela não perdia a fé. Noites insones lendo originais remelentos que mantinham o negócio com a cabeça apenas fora da água, num nível de respiração quase artificial.

Até que.

Mas, antes, voltemos ao livro de Mary. Que ela retocava diligentemente aqui e ali, como uma maquiagem que nunca parece estar pronta. São contos. O crème de la crème de sua produção, tudo que ela pôde amealhar de melhor desde os bancos da faculdade; histórias visitadas e revisitadas pelos olhares de pincenê de professores mestres e doutores em teorias que os valham. Críticas que ela obedientemente levava em conta.

Até que lá estava a mensagem.

Oi, li sobre a editora. Este é meu primeiro livro.
Quero publicá-lo.
Abs
Lúcia

Assim, sem floreios. Sem pisar em ovos. Incisiva. Quase como uma ordem. Um martelo.

Oi, Lúcia,
Recebi seu original. Obrigado por sua preferência. Retornarei em breve.
Abraço,
Mary-Editora

Resposta padrão curta, mas cuidando para transmitir o mínimo de interesse. Baixou o livro para a pasta de não lidos, na qual já estavam cinco arquivos. Foi cuidar da rotina. Correios e banco à tarde. À noitinha, está de volta. Jantarzinho burocrático com João.

Ela tem por hábito ler ao menos as primeiras páginas de tudo que recebe. Vício de leitor, talvez mais do que de editor. Se o livro fisgar, ela fura a fila, e o põe no topo de suas prioridades. Não vê em sua atitude qualquer deslize ético para com aqueles que lhe confiam seus sonhos. Aquilo não é uma linha de montagem. A literatura é uma coisa non standard.

Havia nela um detector de qualidade natural. Ao se deparar com um bom livro, seu corpo era atravessado por uma energia que a atingia nas partes mais íntimas, como se envolto numa dança sensual.

O livro de Lúcia era porrada atrás de porrada, como golpes vigorosos de vida. Contos. Nada ali parecia retórico ou meramente literário. Tudo exalava uma escrita forjada na experiência bruta. Um fio condutor invisível a puxava para dentro de cada história. Pareciam relatos de uma mulher que havia sobrevivido a um ataque atômico. Tal era a força de seus relatos.

Ao concluir a leitura, Mary estava convencida de que tudo que não soubera resolver como escritora Lúcia se desincumbira com brilhantismo. A euforia de que finalmente um martelo acertara sua caixa postal se misturara a um sentimento de frustração e derrota. Não havia como negar. Como escritora, Lúcia era inegavelmente superior a ela.

Esse esmorecimento, estranhamente combinado à alegria pelo achado, se intensificaria dias depois, quando Mary conheceu Lúcia pessoalmente.

Oi, Lúcia,
Gostei muito de seu livro. Vi que seu DDD é de minha cidade. Creio que podemos conversar pessoalmente sobre seu trabalho. O que você me diz?
Abraço,
Mary

Acertaram num café a algumas quadras do prédio de Mary. Diante dela, uma jovem de no máximo 20 anos que em nada poderia sugerir a persona da escritora. Nada, nem mesmo o piercing atravessando-lhe o canto esquerdo do lábio inferior, formando uma espécie de pequena concha. Nem mesmo o cabelo tingindo de azul. Nem mesmo a saia talvez um pouco curta demais.

Venceram as formalidades com a intimidade natural que as mulheres costumam apresentar, como se já fossem velhas amigas. Com um entusiasmo incontido, Mary expôs suas impressões do livro. Lúcia apenas pontuava com breves sorrisos, como se já esperasse aquela recepção.

Ela mostrava uma segurança que não poderia ser confundida com insolência ou rebeldia gratuita, típicas da idade. Aquilo fez Mary, aos 30, sentir-se velha. Mais uma vez, estava dividida ante a presença de Lúcia. Seu livro poderia representar um salto nos negócios da editora. Por outro lado, a escritora saíra perdendo ao verificar que Lúcia estava lá na frente; que era boa de verdade, embora ainda tão jovem.

Marcaram outro encontro, para discutir detalhes da publicação. Mary empregaria todo o potencial de que dispunha para que o livro de Lúcia tivesse boa visibilidade; que pudesse chegar nas mãos certas; que encontrasse muitos e muitos leitores.

Mary escreveu um release cuidadoso do livro, dourando ao máximo suas qualidades, de modo a não restar dúvida de que criaria uma expectativa bastante positiva nas redes sociais. Para reforçar sua estratégia, despachou o release para um amigo jornalista. Antecipava a divulgação do livro antes mesmo que Lúcia assinasse o contrato de publicação.

Na data combinada, Lúcia não apareceu ao encontro. De nada adiantaram as inúmeras chamadas de Mary e recados na caixa postal. Lúcia parecia ter-se evaporado. Tentou durante dias e por fim desistiu. Afinal, ali estava o final perfeito para o livro que Suzana, finalmente, se convencera a publicar. E com alívio enviou O livro de Lúcia para uma editora previamente selecionada, indicada por um de seus amigos.

Agora, tudo o que tinha de fazer era esperar.

 

Paulo Lima é editor da revista Balaio de Notícias.