Edição 213 - Brasília, 08 de outubro a 05 de novembro de 2017

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Cinema

Uma aventura real
Filme conta a história de Gabriel Buchmann

Por Carlos Alberto Mattos

Foto: Divulgação

Cena do filme Gabriel e a montanha

Existem filmes que nos tocam pela capacidade de reproduzir um fato real e nos fazer compreender melhor suas motivações. Existem outros que nos levam diretamente à experiência ali evocada, ainda que pelas vias da representação. Gabriel e a montanha faz as duas coisas com uma felicidade raramente vista no cinema.

Em 2009, o diretor Fellipe Barbosa (“Laura”, “Casa Grande”) viu seu amigo de infância, o economista Gabriel Buchmann, ser encontrado morto durante uma expedição solitária ao Monte Mulanje, no Malawi. Num misto de feeling cinematográfico e desejo de prestar tributo à memória do amigo, ele partiu para a África em busca dos guias, motoristas e demais pessoas com quem Gabriel interagiu em seu longo périplo pelo continente africano. Cristina Reis, sua namorada, atuou como consultora do roteiro, ao passo que as anotações de viagem de Gabriel forneciam pistas suplementares.

O jovem economista viajava como mochileiro em regime autossustentável, visando preparar-se empiricamente para um doutorado em políticas públicas contra a miséria, que faria em seguida na Universidade da Califórnia. Sua excitação no contato com os africanos e na exploração da natureza o levava a cometer imprudências e a eventuais conflitos com a namorada, que o acompanhou em parte da viagem.

O filme de Fellipe reconstitui a passagem de Gabriel por quatro dos sete países visitados, tendo João Pedro Zappa no papel-título, Caroline Abras como Cristina e diversos interlocutores africanos de Gabriel revivendo seus papéis. Eles viajaram aos mesmos lugares e João Pedro chegou a usar figurinos que pertenceram ao próprio Gabriel. O mínimo que se pode dizer desse trabalho é que é excepcional, seja pela integridade com que tudo acontece na tela, seja pela emoção que a viagem desperta.

Enquanto assistia, lembrei-me de dois filmes que, a meu ver, dialogam muito de perto com GABRIEL E A MONTANHA. Não por acaso, ambos são documentários. De Serras da Desordem, me veio o dispositivo de refazer um trajeto a partir dos encontros do passado e mobilizá-los numa reencenação. Se no filme de Tonacci ator e personagem se confundem, pode-se dizer que o efeito é semelhante no de Fellipe, haja vista a forma como Zappa se apropria do suposto espírito de Gabriel e o nível de veracidade com que se dão as relações entre ele, Caroline (a conversa no ônibus é uma façanha de poucos paralelos) e os coadjuvantes verídicos. Muito do que vemos e ouvimos é um amálgama de características dos personagens com os atores que os interpretam. A constante interação entre cena escrita, acaso e improvisação é um dos imensos prazeres oferecidos pelo filme.

De Uma Passagem para Mário, a não menos comovente homenagem que Eric Laurence fez ao seu amigo Mário Duques, encontrei o mesmo gesto de empenho e carinho em nome de um ente querido. Assim como Eric, praticamente sozinho, levou a memória de Mário para passear no Deserto do Atacama, destino apenas sonhado pelo amigo já falecido, Fellipe se lançou, com uma equipe de 70 pessoas, no rastro de Gabriel. A difícil e arriscada expedição estendeu-se a lugares remotos como o topo do Monte Kilimanjaro.

O filme, detentor do Prêmio de Revelação na Semana da Crítica de Cannes, transpira entusiasmo, sem nunca assemelhar-se a uma obra de luto. A aventura cinematográfica ali contida é de uma envergadura rara no cinema brasileiro, usualmente mais tímido na disposição de se lançar no grande mundo lá fora. O Gabriel de João Pedro convive com uma tribo Masai do Quênia, faz safári na Tanzânia, entra em fase com cidades de Zâmbia e conclui sua trip nas altitudes do Malawi.

Flashes de lembranças sobre ele nos chegam através de curtos depoimentos de seus interlocutores africanos, além de mensagens trocadas com Cristina e familiares. Esses recursos, característicos da linguagem documental, são de tal forma bem inseridos no tecido ficcional que não soam como rupturas de registro nem complementação exógena.

Em muitos sentidos, Gabriel e a montanha confirma o talento e a sensibilidade de Fellipe Barbosa para dramatizar os impulsos de uma juventude alheia aos estereótipos e apta a nos tocar a todos pela verdade do inesperado.


Carlos Alberto Mattos é jornalista e crítico de cinema. Texto originalmente publicado no blog do autor.