Edição 213 - Brasília, 08 de outubro a 05 de novembro de 2017

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Música

Caracóis sonoros
A música de Philip Glass

Por Cesar Carvalho

Foto: Divulgação

O música Philip Glass em apresentação no Parque Ibirapuera

Pode existir coisa melhor do que um amante de música ter a chance de ver e ouvir um de seus compositores favoritos ao vivo, ali, na sua frente, em carne e osso? Pois é. Quando soube que Philip Glass estaria no Brasil para comemorar seus 80 anos, desabotoei os lábios num sorriso, soltei foguetes. Em hipótese alguma deixaria de agarrar esta oportunidade pelos cabelos. O compositor, considerado um dos mais expressivos músicos contemporâneos, autor de tantas trilhas sonoras vibrantes e fortes, se apresentaria em São Paulo, em dois momentos, um, na Sala São Paulo, e outro, na plateia externa do Auditório do Ibirapuera . Para o primeiro, os ingressos estavam esgotados. Sobrava o segundo, com a vantagem de ser gratuito. A massa teria acesso ao biscoito fino, como profetizara Oswald de Andrade.

Bem, você sabe, espetáculos gratuitos em espaços abertos sempre atraem muita, muita gente, e o sensato, para pegar um bom lugar, seria chegar cedo. Mas como? Naquele mesmo domingo tinha um compromisso com os poetas que organizam o Sarau da Paulista. Impossível faltar, afinal, sou um dos responsáveis por ele. Perder Philip Glass por causa do Sarau? Deixar de ir ao Sarau por causa de Philip Glass? Para tudo neste mundo existe saída e a solução foi simples, sairia mais cedo, meus compadres poetas entenderiam e ficaria tudo bem. E foi o que fiz.

Cinco horas da tarde sai, saltitante, acompanhado de minha mulher. Da Avenida Paulista até lá, fácil, fácil, chegaríamos em menos de meia hora. Talvez não conseguíssemos um lugar privilegiado, mas, mesmo distante do palco, a qualidade sonora garantiria uma ótima audição, desde que me posicionasse entre as caixas de som, como gosto de ficar.

Ao nos aproximarmos, fiquei impressionado com o mar de cabeças multicoloridas que se estendiam desde a tenda de som até o palco. Segundo informações dos produtores, cerca de quinze mil pessoas, isto mesmo, quinze mil pessoas, estavam presentes. A massa esperava animada para degustar o biscoito fino que se serviria em seguida. A tarde findava com os últimos raios de sol iluminando o amplo palco e a brisa primaveril esfriava nossos corpos desagasalhados. Sentamo-nos à direita da tenda de som, distante do palco. Telefonei para minha filha para dizer-lhe onde estávamos. Ela, jovem de dezenove anos, não poderia perder uma oportunidade dessas.

Seis horas. No palco, uma enorme tela retangular colorida de azul claro realçava o piano, colocado ao centro. A mestre de cerimônias deu início ao espetáculo e chamou a primeira atração, Heloisa Fernandes, pianista brasileira que executaria os Etude no. 6 do compositor.

Soou o primeiro acorde, grave, seguido pelas notas mais agudas que teciam a estrutura rítmica que se desenvolvia enquanto os acordes graves se repetiam formando desenhos sonoros que se enroscavam feito caracóis. Extasiado, fechei os olhos para evitar qualquer tipo de distração e concentrar-me na música.

− Cerveja gelada!
− Moço, dá licença.

Abri os olhos meio espantado. Um ambulante navegava entre a multidão, perto de mim, oferecendo suas bebidas, enquanto retardatários procuravam atravessar o mar de gente para, quem sabe, conseguir um lugar melhor. Não acreditei. Meu Deus, como isso é possível? Música exige silêncio, introspecção. Me esforcei para ignorar os ruídos e concentrar-me na música. Consegui. A melodia ia num crescendo, com sons suaves prolongados pelo uso do pedal. No final, o público aplaudiu entusiasmado.

A primeira vez que tive contato com a obra de Philip Glass foi assistindo a Koyaanisqatsi, uma vida fora de equilíbrio, lançado em 1982 e montado com imagens de arquivo, trabalhadas em câmera lenta e diversos efeitos cinematográficos pontuados pela música, sem qualquer narração. O resultado produziu-me um efeito hipnótico e passei a me interessar pela obra do compositor. Mas, naquela época, o acesso aos produtos da indústria cultural era difícil e havia pouco a fazer, exceto rever o filme várias vezes, nas salas de cinema. Vídeos, DVDs e Netflix, nem pensar.

Quando a pianista se retirou, a cor da tela, no fundo do palco, mudou para vermelho e a mestre de cerimônias apresentou a segunda atração, Maki Namewaka, pianista japonesa que interpretaria excertos da trilha sonora do filme Mishima, uma vida em quatro tempos, dirigido por Paul Schrader e lançado em 1985.

Ao ouvir o nome Mishima, arrepiei. Como esquecer cenas tão fortes quanto aquelas em que o escritor, frustrado por não conseguir adeptos para sua rebelião, decide se matar, praticando o seppuku?

Mishima invadiu um quartel do exército japonês, fez uma barricada no gabinete de seu comandante e rendeu-o. Depois foi para a sacada e incitou os soldados a darem um golpe de estado para restaurar o poder divino do imperador. Durante seu discurso, cada vez mais alto e inútil, a tensão aumentou com os gritos, com o ruído do helicóptero, que sobrevoava a sacada, e com a música. Vaiado e ridicularizado, Mishima voltou para o escritório. Silêncio por alguns segundos. Começou uma batida monocórdica de tambor, tan tan tan. Mishima olhou para o comandante, amarrado e amordaçado. Ajoelhou-se. O comandante implorou para que ele desistisse. Tan tan tan. Mishima tirou seu sobretudo, ajeitou o hachimaki, a testeira japonesa, e pegou a pequena espada. Seu assistente, encarregado de cortar-lhe a cabeça, tremulou. Tan tan tan. Mishima olhou pela última vez para o comandante. Aproximou a pequena espada de seu ventre. Tan tan tan. Mishima deu um grito. O tambor parou. A música começou. Um delírio visual e auditivo.

Não à toa, quando Maki Namewaka entrou no palco, a tela ao fundo ficou inteiramente vermelha e, enquanto interpretava excertos da trilha sonora, as imagens do filme reproduziam-se em minha cabeça. Fiquei emocionado. Como é possível que um compositor trabalhando com o mínimo de notas musicais consiga envolver tanto seu ouvinte?

Numa entrevista à revista Bravo, em sua edição digital, publicada um dia antes do espetáculo, a pianista japonesa dá a chave: “Como uma intérprete japonesa, eu sinto uma forte afinidade entre sua música e o haiku [forma curta de poesia japonesa] do passado, muitas vezes simples na superfície, mas com forte complexidade e expressividade subjacentes. Essa é a razão pela qual ele é certamente a figura mais famosa e mais amada da música em todo o mundo. Há muitos grandes compositores hoje, mas nenhum como ele”.

Quando, depois de quinze minutos de puro êxtase, a pianista saiu do palco, minha filha virou-se para mim e perguntou:

− Pai, o Philip Glass não vai se apresentar? Afinal, ele não é a atração principal?

Nem precisei responder. A mestre de cerimônias apresentou o tão esperado homenageado para interpretar Mad Rush, uma composição de 1980. O público começou a gritar, aplaudir e a se levantar. Até aí tudo bem. O compositor mais do que merece uma ovação dessas, mas, tudo tem limites, né?! Enquanto a maioria se acomodava e o silêncio voltava a reinar antes dos primeiros acordes, o pessoal mais próximo de mim, lá no fundão do parque, continuava ovacionando, gritando e permanecia em pé. De repente, meus ouvidos quase explodiram com o grito de minha mulher, mais do que irritada: Senta, caralho! À sua frente, não sem razão, um rapaz de seus quarenta anos, virou-se para ela e reclamou em altos brados: Meus tímpanos, porra!

Os primeiros acordes foram praticamente inaudíveis. O povo, pelo menos naquele espaço que eu considerei equivocadamente ideal para uma boa audição, demorou um bocado para aquietar. Para mim foi a gota d´agua. Já estava irritado com as inúmeras interferências ruidosas ao longo do espetáculo, mas aquela situação me pareceu insuportável e meu rosto começou a contrair-se, à beira de um ataque de nervos. Minha filha, observando-me, pousou sua mão em meu ombro e, com calma, disse: Pai, não adianta. Relaxa! Respirei fundo. De fato, ela tinha razão. Afinal, se até aquele momento havia conseguido me concentrar no espetáculo, não seria agora que perderia a paciência e deixaria de usufruir momentos tão preciosos. Relaxei.

Mad Rush é uma das composições mais icônicas do minimalismo e tem uma história curiosa contada pelo próprio Philip Glass. Corria o ano de 1979 e Dalai Lama se apresentaria pela primeira vez nos Estados Unidos. Devido a muitos compromissos, o líder tibetano certamente se atrasaria. Os organizadores procuraram o músico e fizeram uma solicitação inusitada: precisavam de uma música que pudesse ser prolongada por tempo indefinido sem que a audiência percebesse o atraso. E o resultado estava ali, à minha frente, interpretado pelo próprio compositor. Perdi os primeiros acordes, mas não deixei de curtir e, literalmente, viajar no universo sonoro e místico que esta peça propicia.

Philip Glass sempre foi considerado um músico minimalista, termo que ele próprio não gosta. Mas existe outra palavra para um tipo de estilo musical que, com poucos recursos sonoros, cria uma estrutura baseada na reiteração de fragmentos melódicos breves e elegantes? Talvez ele tenha razão, afinal rótulos são sempre redutores e servem mais para ajudar jornalistas e escritores a terem menos trabalho quando escrevem sobre qualquer assunto. O termo pouco importa, o que interessa, no fundo, é o resultado de seu trabalho, uma tapeçaria auditiva onde os sons emitidos se torcem, giram, rodeiam, se desenvolvem e nos magnetizam.

No final do espetáculo, depois que os outros pianistas convidados, Jeny Lin e Ricardo Castro, se apresentaram, Philip Glass interpretou os Etudes 9 e 10, composições de 1994, que me produziram os mesmos efeitos inebriantes. Durante sua execução, num dos poucos momentos em que abri os olhos, vi uma cena, no mínimo, insólita. Uns três metros distantes, de pé, no meio do povo sentado, um rapaz dançava tendo em seu colo o que parecia um bebê bastante bem agasalhado. Olhei bem. Não, não era um bebê, era um cachorro!

No dia seguinte, conversando com um amigo mais privilegiado, que ficara sentado mais à frente, onde as pessoas se mantiveram caladas, ouvindo, ele me disse: Quando estava indo embora, acompanhei uma menina que não conhecia a obra dele. Ela disse que a música a fez “olhar para dentro”.

Oswald de Andrade tinha razão. A massa pode agora comer e se deliciar com biscoitos finos, como essa menina, ainda que muitos apenas os engulam, sem saboreá-los.

 

Cesar Carvalho é poeta e escritor, lançou os livros de poesia Lavras ao vento, pá. Editora Benfazeja, SP: 2017; Proesia, Londrina: 2013 e Toca Raul, Londrina: 2014, produções independentes, e Viagem ao mundo alternativo. Editora Unesp, SP: 2008. Contato: [email protected]