Edição 213 - Brasília, 08 de outubro a 05 de novembro de 2017

Youtube Twitter

Turismo

Sardenha paradisíaca
As belezas da segunda maior ilha da Itália

Por Nícia Ribas

Foto: Nícia Ribas

Praia em Castelsardo, na Sardenha

Limpa e selvagem, a segunda maior ilha da Itália faz por merecer o respeito dos ambientalistas, que lá realizam bienalmente o seminário Ecos da Sardenha. Banhada pelo Mediterrâneo, a Sardenha tem dois mil quilômetros de litoral, com falésias, fiordes e grutas, emoldurando praias e pequenas baías, chamadas calas. Tudo imaculadamente limpo e sem construções à beira mar. Em algumas praias, condomínios foram erguidos à distância do mar, conforme a lei, e camuflados na vegetação, sem agredir a paisagem.

Mas nem só de praias paradisíacas vive a Sardenha. Nas campagnas, a vida é diferente da costa. O terreno rochoso e montanhoso obriga os sardos a andar bastante e talvez por isso tenham fama de saudáveis e longevos. No interior da ilha, muitos são pastores de ovelhas, cuidam da terra e do vinhedo. Sabem que dependem da natureza para sobreviver e a respeitam. Donos de uma sabedoria nata, eles têm consciência do verdadeiro valor da vida e costumam repetir, orgulhosamente: “Grazie a Dio, io sono sardo.”

E como se não bastasse, a Sardenha tem história e cultura. Mantém até hoje mais de sete mil nuragues espalhados por toda a ilha. Um deles, chamado Su Nuraxi, foi declarado patrimônio mundial pela UNESCO em 1997. São construções de pedras, em forma de um cone incompleto, sem nenhum tipo de mistura de materiais para uni-las. Datam do neolítico, quando os homens perceberam que as áreas mais favoráveis à sobrevivência ficavam próximas aos grandes rios, com suas cheias e vazantes regulares fertilizando o solo. Nessa época, a descoberta do fogo e do metal permitiu maior controle da natureza.

Por tudo isso, o homem pré-histórico começou a abandonar as cavernas e a construir suas próprias moradias, os nuragues. A partir do século XVI ou XV a.C., as aldeias eram erguidas em volta das muralhas dos nuragues. Os limites dos territórios tribais eram defendidos por nuragues menores em colinas com vista sobre os vizinhos.

Mestres do bem viver

Os irmãos Mastino, Andrea e Marco, nascidos em Bosa, pequena e encantadora cidade banhada por rio e com uma rica bagagem de tradições, representam bem o espírito sardo, levando a vida com simplicidade e alegria. Ferroviário e enfermeiro, hoje aposentados, valorizam cada minuto da vida. Andrea, casado há 10 anos com uma brasileira, Heloisa Cortes Gallotti Peixoto, costuma passar boas temporadas no sul do Brasil e viajar para pontos turísticos, como Rio de Janeiro, Foz do Iguaçu e Lençóis Maranhenses. “Vocês têm belezas naturais invejáveis”, diz ele, apenas lamentando a falta de cuidado com a natureza nas praias. Marco não perde uma chance de conviver com amigos e fazer piadas. Sua mulher, Giuly, tem vocação para alegrar ambientes, preparar delícias da culinária local e, como se não bastasse, cantar belas canções italianas.

No interior da Ilha, em Bortigiadas, o casal Gavina Dettoi e Martino Cossu, vivem o cotidiano de la campagna, criando animais, plantando seus legumes e a uva para fazer seu próprio vinho. Ele também faz grapa, mata porco e prepara salames e presuntos. É trabalho que não acaba mais, porém o fazem com alegria e orgulho. Em seu fogão à lenha, Gavina prepara pratos sardos, típicos do campo, como a zuppa galluresa e o porcheto. Eles se conheceram aos 14 e 16 anos, mas tiveram que esperar os 21 dela para se casar, conforme a lei do campo.

Beleza inebriante

Da comuna de Dorgali, província de Nuoro, saem os barcos para Cala Luna, Cala Mariolu e Cala Gorotzi, enseadas com águas azuis transparentes e praias de areia branca ou pedrinhas arredondadas. Afortunados de toda a Itália e do mundo refugiam-se nesses lugares durante as férias, principalmente no mês de agosto. Existem três aeroportos na Sardenha.

Vizinha de Dorgali, a comuna de Orgosolo é conhecida pelos seus murais de pintores famosos, que registram um passado difícil de protestos e lutas. Monumentos de pedra, como a Roccia dell’Elefante, o Vale da Lua e Capo Testa, assim como antigos palácios, como o Castelsardo, deixam os nativos orgulhosos e os visitantes boquiabertos. Em Castelsardo, artesãos como Luisella Secchi, sua filha e neta oferecem cestas e bandejas feitas de rafia natural e fieno marino.

Praias como Stintino, Balai e Santa Teresa de Gallura estão entre as mais bonitas da Ilha e se mantêm selvagens e imaculadas apesar do turismo intenso. Cada grupo garante seu sustento, levando isopor com bebidas geladas, frutas e os famosos panini, preparados em casa com presunto de parma e seus queijos conhecidos no mundo todo: pecorino, gorgonzola, parmigiano, reggiano, grana padano, taleggio, caciocavallo e mozzarela. Antes de voltar para casa, todo o lixo é recolhido e no dia seguinte, o paraíso está lá, intacto, para novos momentos de bem viver.


Nícia Ribas é jornalista. Texto originalmente publicado na Revista Plurale.