Edição 212 - Brasília, 03 de setembro a 01 de outubro de 2017

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Livros

Por que ser escritor?
A voz literária de Deborah Levy

Por Paulo Lima

Foto: Divulgação

Deborah Levy: por que escrever?

Em seu livro Coisas que não quero saber, recém-lançado pela Autêntica, a escritora sul-africana Deborah Levy procura responder à questão “Por que escrevo”, que George Orwell formulou e respondeu em um ensaio de 1946. É certo que cada escritor tem sua visão do que o impele a criar um universo paralelo a este que costumamos chamar de realidade.

Deborah Levy não apresenta uma razão apenas, mas, dos motivos que expõe em seu livro, torna-se bastante claro que ela precisava de uma voz para poder existir. E não se trata de uma metáfora. Na infância, vivida sob o rigor do apartheid, ela mal se fazia ouvir. Era do tipo que falava baixo, como se desculpasse. Se a gente prestar atenção no jeito como ela, ainda hoje, se expressa em entrevistas, verá que o tom da voz não é dos mais imperiosos.

Certa vez, morando temporariamente com uma tia em Durban, ela ouve da prima alguns anos mais velha, sob todos os aspectos diferente de sua natureza interiorizada:

“Você acabou de falar alto e bom som. As mulheres precisam projetar a voz, já que ninguém as escuta mesmo.”

Tudo começou bem cedo, já na escola à qual Deborah parece não se adaptar e contra a qual se insurge, como se ali, em suas pequenas afirmações de individualidade, já pulsasse a futura escritora. É ela quem expõe os vexames a que estava submetida, e o centro do mal-estar é sempre o limite da voz:

“Na escola, eu tentava falar, fazia um esforço enorme para minhas palavras saírem alto. O volume de minha voz tinha sido abaixado, e eu não sabia como aumentá-lo. O dia inteiro me pediam para repetir o que eu tinha acabado de dizer, e eu tentava, mas repetir as coisas não as tornava mais altas.”

As marcas da inadaptação se faziam notar nos minúsculos detalhes. Ao escrever uma redação escolar, ela, ao contrário dos outros alunos, iniciava o texto sempre algumas linhas abaixo do papel pautado. Nunca no começo da página, como seria esperado.

Essas singularidades se acentuam quando o pai de Deborah é levado preso, por causa de sua militância no CNA, o partido de Mandela. É curioso que, pertencendo ao extrato branco da população, Deborah sinta na pele a força do sistema, cuja brutalidade ela já discerne em casa, ao observar as empregadas negras. Nota como elas precisam trocar seus nomes de origem zulu, para que possam facilitar a comunicação com o patrão branco.

O pai só será libertado dez anos depois, e nesse período, ao que parece, Deborah irá forjar sua personalidade de escritora. A família emigra para a Inglaterra, e é num ninho estranho que Deborah dará início a sua vida adulta.

No novo país, ela perseguirá seu objetivo. Ainda não sabe como alcançá-lo. “Eu sabia que queria ser escritora mais do que qualquer coisa no mundo, mas tudo me oprimia e eu não sabia por onde começar”.

Opressão. Eis mais uma chave para que possamos entender a sensível exposição de motivos de Deborah Levy sobre porque escreve. Seu aprendizado de escritora é também uma jornada de autodescoberta, num processo que tem como ponto de partida a infância e não termina nunca. “É exaustivo aprender a se tornar sujeito, é bastante difícil se tornar escritora”, escreve.

No início de seu belo livro, Deborah Levy está se dirigindo a Maiorca, numa época difícil de sua vida. Ela está voltando ao local, após anos desde a primeira visita. Acaba se perdendo no caminho. É no hotel da pequena ilha mediterrânea que ela esboçará a ideia de seu romance Nadando de volta para casa, seu primeiro livro publicado no Brasil. Nele, uma jovem botânica se aproxima de um poeta, de sua família e de seus amigos, inserindo entre eles um elemento desestruturador. Sobre a aparente situação de claridade, paira uma sombra.

Essa chegada desabonadora ao hotel é um preâmbulo ao retorno que Deborah Levy realiza até a infância, e daí emerge de volta a Maiorca, já escritora, sem que as conquistas sejam evidentes. Ainda está envolta por questões nebulosas: “O que fazemos com o conhecimento com o qual não suportamos conviver? O que fazer com as coisas que não queremos saber?”, ela se pergunta.

A resposta mais óbvia seria: transforme tudo isso em literatura. Mas Deborah Levy não se tornou escritora à toa. Ela sabe que se move por um campo minado, um território no qual prevalecem mais as dúvidas do que as certezas, num jogo impreciso de luz e sombra.

E, como que fornecendo a chave de sua resposta ao “por que escrevo”, ela se dá conta da dimensão do desafio a que se propôs, quando quis ser escritora: “Uma escritora não pode se dar ao luxo de sentir a vida com muita clareza. Se o fizer, escreverá com raiva quando deveria escrever com calma”, ecoando uma reflexão de Virginia Woolf.

E nesse ponto residem a sabedoria e a coragem de Deborah Levy. Diante dos absurdos do mundo, um escritor não deve ceder às tentações das facilidades, aceitando, ao contrário, o desafio do embate com o chiaroscuro que está sempre por trás das coisas. Numa palavra, é preciso entender que é nas coisas que não sabemos – ou não queremos saber – que residem os grandes desafios do escritor.

 

Paulo Lima é editor da revista Balaio de Notícias.