Edição 212 - Brasília, 03 de setembro a 01 de outubro de 2017

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Memória

O poeta russo
Meu encontro com Yevgueni Yevtushenko

Por Josie Mello

Foto: Divulgação

O poeta russo Yevgueni Yevtushenko 

“Quisiera amar
a todas las mujeres del mundo,
y ser también una mujer
sólo una vez…
La madre naturaleza ha menospreciado al hombre.
¿Por qué no lo hizo capaz de ser madre?
Si se agitara un niño
bajo su corazón,
acaso el hombre
sería menos cruel.”

O poeta que escreveu esses versos em epígrafe foi um homem apaixonado, feminino em sua sensibilidade, varonil em suas convicções. Escreveu poesia, prosa e teatro. Casou-se quatro vezes e teve cinco filhos. Viajou pelo mundo, foi aclamado e homenageado, do mesmo modo como também sofre o apagamento da história oficial pelo fato de ter sido um combatente das ditaduras e das desumanidades. Mas ele tem um planeta batizado com seu nome. O “4243 Yevtushenko” foi descoberto por astrônomos da Crimeia em 6 de maio de 1978.

Yevgueni Aleksandrovich Yevtushenko, o poeta russo, nascido na Sibéria em 18 de julho de 1932, foi um homem singular. Filho de pai poeta e mãe cantora. Desde jovem queria ser escritor, e dizia que iria reunir na sua poesia a força de Maiakóvski e a ternura de Pasternak. Creio que ele conseguiu seu intento.

Em 1987, Yevtushenko viajou por vários países, e passou pelo Brasil. Visitou amigos, recebeu homenagens e declamou seus poemas. Quando já estava de viagem marcada para continuar seu giro pela Europa, Gerardo Mello Mourão, então presidente da Fundação Cultural do Rio de Janeiro, convidou-o a visitar o Rio. Ele não tinha previsto esse desvio e não poderia vir. Gerardo não se rendia facilmente e decidiu: — O poeta vem! Nisso, a rede de contatos do poeta cearense teve de ser convocada com urgência para que se conseguisse hospedagem e um teatro para um recital. Depois de muita correria, telefonemas e pedidos atendidos, recebemos o poeta russo na cidade maravilhosa.

Naquele ano, eu trabalhava como tradutora de espanhol na Fundação e, por isso, fui convocada para tomar algumas providências e ficar à disposição do visitante, já que ele falava espanhol e nós não falávamos russo. Meu contato direto com ele foi mínimo durante sua estada. Atendi-o ao telefone algumas vezes. Também fui intermediária entre ele, a atriz Dina Sfat, Gerardo e a secretaria da Fundação, pois ela participou do recital no Teatro do Copacabana Palace. Não pude assistir ao evento, mas soube depois que foi emocionante.

Na véspera da viagem do poeta, Gerardo me chamou e me entregou um envelope com as passagens de Yevtushenko, e me pediu para assisti-lo antes da partida, que seria de manhã. Dei instruções ao motorista para ir buscar o poeta no Hotel, em Ipanema, passar em Laranjeiras para pegar as passagens comigo e seguir para o aeroporto do Galeão. Assim foi feito.

Às sete em ponto a campainha tocou. Desci correndo as escadas e fui abrir o portão. Recebi um “buen día” e um sorriso de agradecimento. Yevtushenko recebeu suas passagens, me perguntou algumas coisas, conversamos um pouco quando, de repente, a paisagem da rua chamou sua atenção. A rua Rumânia é pequena, sem saída e com um declive que vai dar na rua das Laranjeiras. Acompanhei seu olhar e vi que ele estava surpreso ao ver funcionários da limpeza urbana que conversavam varrendo a rua, lá embaixo. O poeta achou a cena muito bonita – a cor da roupa dos trabalhadores, a destreza dos corpos em ação, a claridade meio difusa da manhã – e me perguntou:

— ¿Quienes son?

E eu respondi:

— Son los “garis”.

Ele então tirou do bolso da camisa uma cadernetinha e escreveu:

¿Quienes son los garis?
Son los que jamás
Vendrán a Paris.

Assinou, me entregou e esperou que eu lesse. Como fiquei emocionada, ele apenas se curvou, beijou de leve minha cabeça e caminhou em direção ao carro que o aguardava. Foi acenando até o final da rua, cumprimentou os garis e desapareceu da minha vista. Fiquei ali, ainda um tempo parada no portão, pensando em tantas coisas...

Todas essas lembranças me vieram como uma enxurrada no dia em que li a notícia da morte de Yevtushenko. Fazia trinta anos. Quanto tempo para se fazer tantas coisas. Trinta anos são uma vida. Depois da passagem do poeta pelo Rio de Janeiro, ninguém mais falou nele por aqui. Ele seguiu seu curso. Nós ficamos. Dina morreu em março de 1989. Gerardo morreu em março de 2007. E agora era a vez do poeta... E era 1º de abril, dia da mentira!

Mas a notícia era real. Sim. Morreu o poeta russo! Morreu o poeta que lotava estádios de gente que ia ali para ouvir seus poemas de denúncia contra os desmandos do poder! Morreu o poeta russo que me deu de presente um poema inédito escrito em espanhol! O papel escrito com sua caligrafia eu não sei mais onde ficou, mas seu olhar, seu semblante sereno, sua estatura elegante e seus versos ficarão comigo até o dia em que eu também morrer.

 

Josie Mello é poeta e tradutora.