Edição 212 - Brasília, 03 de setembro a 01 de outubro de 2017

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Cultura

A história como produto
Uma visita à capital alemã

Por Carlos Alberto Mattos

Fotos: Carlos Alberto Mattos

Karl Marx disse que todos os grandes fatos e personagens históricos aparecem duas vezes, uma como tragédia, outra como farsa. Berlim, no entanto, apresenta outra variação desse pensamento. Ali as tragédias da História retornam como arte, como monumento e também como fonte de renda para o turismo.

Quem visita a capital alemã como eu fiz no mês passado, sem compromisso de trabalho, se quiser pode dedicar vários dias a percorrer os numerosos memoriais e museus que recontam a história da cidade e do país, com ênfase nos horrores do nazismo e nas tensões da Guerra Fria. Há todo tipo de abordagem – da austera composição de blocos de pedra cinza que lembra as vítimas do Holocausto próximo à rua Hannah-Arendt (foto abaixo) até o coloridíssimo e interativo museu The Story of Berlin, que inclui a descida a um abrigo antinuclear nos subterrâneos da movimentada artéria Kurfürstendamm.

Provavelmente mais que qualquer outra cidade no mundo, Berlim desenvolveu essa capacidade de explorar as dores do passado numa forma de luto que é ao mesmo tempo reparadora e lucrativa. A História se transformou num produto vendável em lojinhas de museu e de souvenires, em tickets e tours. Muita gente ainda confia na legitimidade dos fragmentos do “muro de Berlim” à venda por todo canto. Camelôs seguem mercando distintivos e peças de farda supostamente pertencentes às forças armadas da antiga Alemanha Oriental.

No antigo Checkpoint Charlie da Friedrichstrasse, uma casinhola branca mantém-se de pé marcando o local de maior vigilância na fronteira entre as duas Berlins até 1989. Ali há sempre dois guardas ornamentados com a bandeira americana. Por alguns euros você pode “contratá-los” para posarem juntos numa foto ou selfie.

Bem ao lado, por mais 14,50 euros entra-se no Museu do Muro, uma sucessão de pequenas salas entulhadas de textos, fotos e objetos. O destaque aqui são os métodos e parafernálias utilizados nas mais ousadas tentativas de fuga de Berlim Oriental: balões de gás, equipamento de mergulho, escavação de túneis, etc. Outra curiosidade são as diversas salinhas onde se exibem permanentemente filmes sobre a história da cidade dividida. Checkpoint Charlie, no fundo, é um ponto de exaltação da “América livre”, com menções de louvor a Ronald Reagan e aos que aspiraram a romper a Cortina de Ferro e desfrutar das promessas do Ocidente.

Basta atravessar a Friedrichstrasse para ter acesso à instalação The Wall, do especialista em panoramas Yadegar Asisi (acima, um trecho do painel). Após pagar o preço que quiser pelo ingresso, o visitante se vê diante de uma imensa tela semicircular de 60 metros de largura por 15 de altura. A partir de uma combinação de pintura realista, música, áudios e efeitos de luz e som, em tamanho natural, Asisi montou um trecho imaginário da cidade dividida pelo muro. É uma experiência imersiva interessante, desfrutada do alto de uma plataforma diante do megatelão.

No outro lado da cidade, às margens do Rio Spree, um trecho de pouco mais de um quilômetro do muro foi preservado e virou a East Side Gallery. Artistas foram convocados a grafitar a superfície, e hoje a maior parte da extensão está protegida por uma grade contra a intervenção de pichações. Ainda assim, algumas partes ganharam assinaturas e mensagens de populares, incluindo um “Fora Dória” que não escapou ao olhar atento da minha mulher.

Situada ao longo de uma avenida, a East Side Gallery não cobra nada de quem a percorre, mas numa das extremidades localiza-se o pequeno e recente The Wall Museum (sim, mais um), com tickets a 12,50 euros. Fotos, vídeos e objetos recontam a história do muro, de sua construção à derrubada. Obras de Keith Haring e David Bowie relacionadas ao muro estão presentes, além de uma sala que homenageia o concerto The Wall, do Pink Floyd, em sua edição berlinense. O herói, porém, é Mikhail Gorbachev, identificado como “o homem que mudou o nosso mundo”.

Há muitos outros endereços da memória histórica espalhados pela cidade. O tradicional Museu Histórico Alemão abarca desde a era medieval. O popular e interativo DDR Museum explora o estilo de vida da antiga Alemanha Oriental. O Stasi Museum disseca os métodos de espionagem da polícia secreta da DDR. O Jüdisches Museum expõe a história e a cultura da comunidade judaica alemã. O Mauerpark (foto à esquerda) preserva outro trecho de muro (ao fundo, no alto da pequena elevação), intensivamente grafitado e cercado por multidões de jovens que nos domingos vão tocar, dançar, cantar em karaokês e pechinchar num mercado de pulgas.

De todos os memoriais ligados ao muro, talvez o mais explícito e comovente seja o Gedenkstätte Berliner Mauer, que se estende por vários quarteirões da Bernauer Strasse, no local onde antes passava a “faixa da morte” entre os dois muros. As fachadas das casas do lado oriental da rua pertenciam à DDR, muitas das quais tinham as janelas seladas por tijolos para vedar a comunicação com o outro lado. Hoje um local talvez aprazível demais, com seus extensos gramados, comparado com o que foi até há 28 anos, a Bernauer Strasse expõe as fundações do muro, os mecanismos de vigilância e controle da fronteira, assim como rende tributo aos que morreram tentando fugir da “tirania comunista”. Materiais provenientes das estruturas do muro, como estacas de ferro, demarcam os locais por onde passava a divisão.

Aqui também a visita é pública, ao ar livre, mas não será completa sem a passagem pelo centro de documentação e de visitação, onde outras histórias são contadas e é exposto, por exemplo, um dos “tapetes” de pinos de ferro que impediam o trânsito dos fugitivos (foto abaixo). Uma lojinha e uma livraria oferecem materiais e lembranças do memorial a preços não tão módicos.

A Alemanha é o país que mais cultua o capitalismo na Europa. Entreouvi um guia turístico dizer, entre risos, que nada se obtém de graça em seu país. O próprio Muro de Berlim foi reciclado das mais diversas maneiras. Segundo a pesquisa publicada em Die Berliner Mauer in der Welt (Anna Kaminsky, Berlin Story Verlag, citado em Berlin Now, de Peter Schneider), a maior parte dos 106 km de concreto armado foi triturada e usada na pavimentação de estradas da antiga DDR. O aço foi derretido e reprocessado industrialmente.

Mas uma boa parcela do muro foi dividida em 360 pedaços, vendidos como obras de arte por até 40 mil marcos. Tornaram-se itens desejados por museus e colecionadores. Em 1990, uma casa de leilões em Monte Carlo bateu o martelo sobre 81 fragmentos. Um dos arrematadores foi Ljiljana Hennessy, herdeira do conhaque homônimo, para os jardins da sua casa de campo. A CIA e diversos museus não deixaram de adquirir suas relíquias. Um pequeno trecho do muro chegou até ao distante arquipélago de Tonga, comprado pelo Rei Taufa’ahau Tupou IV.

 

 

 Carlos Alberto Mattos é jornalista e crítico de cinema. Texto originalmente publicado no blog do autor.