Edição 186 - Aracaju, 22 de junho a 20 de julho 2014

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Entrevista

Martin Page
"Meus livros são trágicos e divertidos"

Por Paulo Lima

Foto: Zoe Victoria-Fischer

Martin Page: "A criação de Pit Agarmen foi um alívio"

 

Quem lê o romance A noite devorou o mundo, recém-lançado pela Editora Rocco, tem duas surpresas. A primeira é descobrir que o autor, Pit Agarmen, desconhecido entre nós, é na verdade o escritor francês Martin Page, autor do best-seller Como me tornei estúpido e de outros livros já conhecidos dos brasileiros, como A gente se acostuma com o fim do mundo, Talvez uma história de amor e A libélula dos seus oito anos. A segunda surpresa é o tema: uma história envolvendo zumbis.

Vencidas as surpresas iniciais, passamos à leitura do romance e rapidamente somos capturados pela narrativa com sabor de  thriller hollywoodiano criada por Martin Page, ôps, Pit Agarmen. Aos poucos o leitor vai descobrindo que os zumbis da história não passam de uma poderosa metáfora para o mundo cruel em que vivemos. No fundo, somos todos zumbis, criaturas sem alma, cujos corações foram devorados pela sociedade de consumo.

Como nos romances anteriores do autor, toda a ação tem Paris como cenário, mas, nesse caso, é uma Paris distópica, dominada pela feiúra e pela fúria dos zumbis. Na história, um escritor vai a uma festa no apartamento de uma amiga em Pigalle. Deslocado e sem se afinar com nenhum dos convidados, acaba tomando um porre e adormece na biblioteca. No dia seguinte, ao acordar, descobre que todos foram trucidados selvagemente. O mundo acabara de ser dominado por zumbis, e aparentemente só restou ele como sobrevivente, encurralado num prédio de apartamentos. Por ironia, foi exatamente sua condição de inadaptado ao convívio humano que o salvou. Agora ele terá que desenvolver estratégias para continuar vivo. E nisso está o cerne do romance.

Doses gigantescas de sangue e cenas escatológicas esperam pelo leitor. Mas o tom é de sátira e fábula, numa combinação de pessimismo filosófico e entretenimento, características da literatura de Martin Page, exacerbadas, porém, pelo extremo e pela loucura de seu duplo literário Pit Agarmen. É impossível largar o livro até que se conheça seu final surpreendente.

“Criar Pit Agarmen foi uma maneira de nascer de novo”, explicou Martin Page nesta entrevista concedida por e-mail, na qual fala de seu romance, da necessidade de escrever sob uma nova persona literária, de suas fontes de inspiração e de sua vida pessoal. “Sou um deprimido feliz”, disse.

***

Quando decidi lhe pedir esta entrevista, eu sabia que estaria conversando com Martin Page, mas imaginava também que estaria conversando com outro autor chamado Pit Agarmen. Por que você decidiu escrever um romance com esse pseudônimo?

Anos atrás comecei um blog com esse pseudônimo. Era uma maneira de falar com franqueza de minha vida e do meu trabalho. Pôr uma mascara é um modo de dizer coisas que você não pode dizer abertamente. E é uma maneira de fugir de si mesmo.

Eu realmente gostava de escrever esse blog com pseudônimo. Eu dizia coisas que nunca diria com meu nome verdadeiro. Pôr uma máscara, como um ator no palco, muda seu jeito de falar, lhe dá novas ideias e uma nova energia. Então um dia pensei: ei, por que não escrever um romance com essa máscara e ver o que acontece? Então, comecei.

Criar Pit Agarmen foi uma maneira de nascer de novo. Escolhi escrever o tipo de livro de que gostava quando era adolescente: romances de ficção científica e terror. Romances de gênero. É parte de minha educação como escritor, e retornei a isso, a esse prazer puro das histórias imaginárias. Queria fazer uma homenagem, mas também queria sinceramente ser aquele tipo de escritor. Entre meus heróis estão Dostoievski, Flaubert, Shakespeare, Cervantes, mas também Júlio Verne, Ray Bradbury, Edgar Allan Poe, Lovecraft e Stephen King.

O nascimento de Pit Agarmen foi um alívio. Ele me permitiu existir mais. Acho que as pessoas tentam ser apenas uma única pessoa. Mas cada ser humano é pelo menos duas pessoas. Somos múltiplos.

O pseudônimo é uma maneira de ter acesso a partes de nosso eu que estão ocultas. Então, com Pit Agarmen, sou mais extremo, violento, louco. Mas esse também sou eu, tenho as mesmas obsessões. As pessoas que leem os livros que escrevi como Martin Page me reconhecem, mas com algo mais, algo novo. Sou escritor desde os 13 anos, é importante que eu surpreenda a mim mesmo.

E quase esqueci isso: é um modo de chegar a pessoas que não leem “romances sérios”. Existem pessoas que leem apenas romances de gênero. Pit Agarmen escreve o tipo de romance do qual elas podem gostar. Eu era como essas pessoas. Quando eu era adolescente, fui membro de um clube de ficção científica no ginásio. Preciso dizer que essa é também uma forma de ser elusivo (que prazer!) e de assustar as pessoas sérias.

Podemos ler A noite devorou o mundo como uma distopia com uma mensagem filosófica, mas, por causa dos zumbis, o romance também lembra um filme de Hollywood, de modo que pessimismo e diversão parecem caminhar juntos. Você teve essa intenção?

A vida é trágica e divertida, e assim são meus livros. Não precisamos escolher entre livros profundos e livros de entretenimento. Alguns livros são as duas coisas. Esse é meu objetivo. O hiato entre literatura erudita e literatura sem pretensões intelectuais é tão tola (e tão institucionalizada). Michael Chabon escreveu um ótimo artigo sobre esse assunto

Sou um homem deprimido feliz. Sou ao mesmo tempo desesperado e cheio de alegria. Isso é o que podemos chamar de estado de espírito trágico.

Tanto A noite devorou o mundo quanto seus romances anteriores são ambientados em Paris. Essa condição geográfica é indispensável para você como escritor?

É mais fácil, porque as pessoas já têm em suas mentes algumas imagens construídas de cidades como Paris, Londres, Nova York, Moscou, Rio de Janeiro, Tóquio, Veneza etc. Paris é um bom cenário. Posso falar da cidade e todos têm alguma noção dela. Enquanto escritores, trabalhamos com as mentes de nossos leitores.

Claro que um escritor pode criar uma cidade ou falar de um vilarejo que ninguém conhece. Tudo é possível. Mas, nesse caso, por eu ter falado sobre zumbis – uma criatura “fora da realidade” -, foi importante ter ambientado as cenas num lugar muito conhecido. É uma questão de contraste.

Em seu romance, os zumbis são uma metáfora de nossa sociedade de consumo, na qual o personagem principal, que é escritor, tem que se adaptar e sobreviver sozinho como um Robinson Crusoé moderno. Uma das soluções que ele encontra é escrever um livro. Esta seria uma visão política da literatura como elemento de resistência, uma de suas possíveis missões?

Acho que meu herói também tem grandes problemas para viver na sociedade de humanos: os humanos também são zumbis para ele. Acho que a resistência se dá não apenas pela literatura, ela está em toda parte, caso contrário seria inútil e só hipocrisia. O futebol, o amor, a amizade, a comida, o vinho deviam (deveriam) ser elementos de resistência. Acredito firmemente que a solidão é uma maneira de resistir, mesmo que sejamos uma só pessoa.

No livro você faz um agradecimento a Mary Shelley por seu romance O último homem, que serviu de inspiração para A noite devorou o mundo. Como os zumbis entraram na história? O cinema o influenciou?

Mary Shelly é muito importante, e não é suficientemente conhecida. Devo muito a ela. Todos, todos os escritores de gênero devem a ela, mas quase ninguém fala de sua influência.

Cinema? George Romero é um de meus ídolos, e também Mario Bava, Dario Argento, Lucio Fulci, e muitos outros: Georges Franju, Jacques Tourneur, Spielberg, Tobe Hooper etc.

Eu realmente gosto de monstros, vampiros etc. Escolhi os zumbis porque na época estava muito deprimido, atacado por muitas ansiedades e com problemas psicológicos. Era óbvio que eu transformasse todos aqueles sentimentos difíceis que me magoavam em zumbis. Foi uma metáfora perfeita.

Li que seus trabalhos mais recentes incluem um livro sobre a chuva (De la pluie) e um livro sobre o ato de escrever (Manuel d´écriture et de survie), os quais são muito diferentes do tema sobre zumbis. Como você escolhe seus temas?

Sim, de algum modo, são diferentes. De la pluie fala da chuva, o Manuel d´écriture fala do trabalho, da vida e do ofício do escritor hoje em dia. Mas no fim das contas falam de mim mesmo. Acho que meu estilo e minha ética aparecem com bastante clareza nesses diferentes tipos de livros.

Ah, como escolho meus temas? Difícil dizer. Sempre tenho ideias de histórias, personagens, situações. Me apaixono pelas ideias e a única coisa que quero é escrever sobre elas e começar um novo romance.

Tive uma vida difícil. Meu pai foi um grande homem, um mensch, mas ele também era muito doente. Tinha problemas mentais e era alcoólatra. Ficou desaparecido durante um ano. Era um sem teto. Morreu muito cedo. Sinto a falta dele. Não quero falar muito sobre minha vida, mas sei o que é desespero. Sei o que é loucura e pobreza. Muitos amigos meus, e meu irmão, lutam para encontrar emprego e pagar o aluguel. Meus melhores amigos têm problemas mentais. É um mundo muito duro, e a França é uma sociedade muito hipócrita, cheia de grandes palavras (liberdade, igualdade, fraternidade), mas na verdade é muito desigual e impiedosa.

Minhas ideias vêm dessa merda toda que surge em minha vida, na vida de meus amigos e de suas famílias. E de minha força vívida para superar a tragédia e sobreviver.

Você é um escritor francês, e sabemos que a França tem uma longa e importante tradição na literatura. Como você lida com essa tradição?

Tradição é uma coisa ótima, mas também uma armadilha. Temos que lutar contra a respeitabilidade, porque isso destrói nossa liberdade como artista. Temos de fazer o que está em nossas mentes e corações, não o que será respeitável e aclamado pelos críticos sérios (ou populares). A autonomia é o principal objetivo de um artista. Tome cuidado com os aplausos.

Você é normalmente lembrado como o autor de Como me tornei estúpido, que se tornou um sucesso mundial, mesmo apesar de você ter escrito muitos livros. É um romance do qual você ainda gosta?

Claro, foi meu primeiro romance. Hoje eu o escreveria de um jeito diferente. Mas naquela época fiz o que pude. O sucesso é uma benção: ele me dá dinheiro e fama, portanto, me dá liberdade para escrever livros que venderão menos.

Se você tivesse que escolher um livro favorito entre os que você já escreveu, qual seria? Por quê?

Não posso escolher. Não quero julgar a mim mesmo. Toda vez que escrevo um livro, ponho todo meu coração e alma nele.

Você também escreve livros infantis. O que é mais desafiador, escrever para crianças ou adultos?

É o mesmo trabalho. A arte não é algo fácil de fazer, seja para adultos ou para crianças, e esta é uma boa notícia: pelo fato de ser um trabalho difícil, coisas interessantes e emocionantes acabam surgindo. As crianças são espertas e corajosas, são modelos para mim. E os adultos são frágeis e perdidos. Quero dar, a ambos, livros que farão diferença em suas vidas.

Você está escrevendo um novo romance como Pit Agarmen, que será publicado no início de 2015, exato? Como será esse romance?

Sim, o novo Pit Agarmen sairá no início de 2015: é um romance com um super-herói. Precisamente: é um romance sobre uma supergarota. Ela enfrenta homens maus e os demônios interiores dela. É violento, cheio de ação e introspecção.