Edição 172 - Aracaju, 26 de maio a 23 de junho de 2013

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Entrevista

Mayrant Gallo
"O ato de ler está arraigado ao ser humano"

Por Tom Correia

Foto: Ricardo Prado

Mayrant Gallo: "O bom escritor procura dosar linguagens"

 

Autor de dez livros, entre contos, romances e poesia, dois deles lançados apenas no primeiro semestre de 2013, Mayrant Gallo, 50, além de escritor em tempo integral, não foge do embate literário ou existencial, quando a situação se apresenta. Editor e mestre em Teoria da Literatura, foi Diretor do Livro e Leitura, da Fundação Pedro Calmon (Secult-BA), órgão do qual foi exonerado em meio a uma grande polêmica no meio cultural de Salvador. Ele garante que o episódio ficou para trás. Quer pensar em seus projetos literários e executá-los da melhor maneira. Música, cinema, quadrinhos e futebol dividem sua atenção enquanto não surge uma nova ideia. Leitor que parece ter folheado todos os livros publicados neste e em outros mundos, a sua memória vasta já produziu até lendas urbanas em torno do seu nome. Dizem que se alguém perguntar a Mayrant quem é a “nova revelação literária do Camboja” ou qual o grande romance do século XIX na Polônia, ele é capaz de responder falando até de detalhes biográficos dos autores.

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Para que serve um escritor no nosso contexto atual? Somos uma sociedade que tem, de modo geral, desprezo pelos livros, pela ficção e pelo conhecimento que a Literatura traz em si. Se todos os escritores e todos os livros fossem incinerados, como ficaria o mundo?

Para uma sociedade como a nossa, que despreza a leitura e a educação, parece que o escritor não serve para nada... No entanto, sempre há leitores, e não apenas os leitores-escritores. O ato de ler está tão arraigado ao ser humano, depois de tantos séculos de prática, que ainda vai demorar muito a desaparecer, se desaparecer. Se todos os livros fossem incinerados, eu proporia que os escritores ainda vivos escrevessem, às escondidas, e trocassem entre si suas obras. E sempre haveria a memória, e esta é uma das funções da poesia: um texto que se memoriza mais facilmente e pode ser partilhado sem mediação física. Aquele mundo que supostamente teria acabado com os livros ia ter, também, de incinerar os autores. E o mundo ficaria mais sombrio, pois a Literatura é iluminação constante.

Se você não fosse escritor, que outra(s) atividade(s) artística(s) você teria ou gostaria de ter? E qual a sua relação com esta(s) outra(s) arte(s)?

Músico, cineasta, pintor... Talvez desenhista de quadrinhos. Mas, se não fosse uma atividade artística, gostaria de ter sido astrônomo ou arqueólogo. Talvez editor, à maneira antiga... Ou até detetive, como aqueles dos anos 1940, dos romances e dos filmes. Ando com vontade de fazer um curso de barista, pois gosto muito de café, e até de pintor de paredes, pois me agrada pintar um recinto e, com isso, deixar as pessoas mais felizes. Me interesso por muita coisa, na verdade. Gosto tanto do trabalho intelectual quanto do manual. Por exemplo, adoro fazer pacotes. E costumo consertar tudo o que se quebra dentro de casa, já até fiz trabalho de encanador na casa de amigos... Creio que eu não morreria de fome em nenhuma dessas atividades.

"Quase que só há ditaduras", você disse recentemente. Num cenário de realismo fantástico, se os escritores fossem obrigados a divulgar ou vender apenas 3 de seus livros, quais você escolheria e por que.

O inédito de Kafka, porque saiu pela lendária CosacNaify, Três infâncias, porque é um dos meus preferidos (o editor Rosel Soares aceitou a liberdade a que o livro se propõe) e Cidade singular, porque o editor Dhan Ribeiro, da Kalango, fez um trabalho muito bom. Mas é uma pena que eu não possa enfiar aqui Os encantos do sol, cuja edição (da Escrituras) me satisfez plenamente e é um livro que me consumiu oito anos, sem falar que é, de fato, um romance ou, talvez, uma novela, e que me deu muito prazer escrever. Mas gosto muito também de Brancos reflexos ao longe, pela variedade dos contos, e de Dizer adeus, de contos de crime. Em geral, gosto de todos os meus livros. Não me arrependo de nenhum. Bem, violei a "Lei Rubim de Parcialidade Autoral" e citei seis obras...

Por falar nisso, sua recente e polêmica exoneração da Fundação Pedro Calmon repercutiu no meio cultural de Salvador. Em seu blog você foi bastante incisivo ao citar o nome do secretário de Cultura do Estado [Albino Rubim], que assinou seu afastamento. Hoje, com os ânimos mais pacificados de parte a parte, o que restou do episódio? Você considera que houve excessos?

Sempre há excessos, pois as palavras são plurais. Mas o que eu disse é a pura verdade. Mais: se o prof. Ubiratan não tivesse morrido, eu ainda estaria na FPC, dando continuidade ao que ele e eu estabelecemos que seria o melhor para a Diretoria do Livro e da Leitura. O Secretário de Cultura não passa de um poltrão. Um marqueteiro oportunista. Diante do professor Ubiratan, com seu humanismo e sapiência, reduzia-se a um pálido intelectual oportunista, que pretende estender à Secult as suas teorias de sala de aula, fazer média com o povo e arrebanhar eleitores para o PT. Ele me afastou da Diretoria do Livro e da Leitura, não pôs ninguém no lugar, mas está seguindo tudo o que eu tinha planejado para 2013. Ou seja: foi pessoal. Além do mais, ele está matando a arte na Bahia, e também a educação. Imagine: transformar a primeira biblioteca da Bahia e do Brasil em Centro de Cultura. Ora, construa-se um centro de cultura! E melhore-se a Biblioteca, nos Barris, que tem inúmeros problemas, desde barulho excessivo (leitura pede silêncio para haver concentração) a acervo em péssimo estado, livros e jornais em petição de miséria. Quanto mais opções para a população melhor. Isso é democracia e evolução. Mas apenas mudar o nome de alguma coisa, que é o que a transformação no fundo será, isso é nada. Bufa. Mas ele, com sua corja, está perto do fim. Este governo, que privilegia a economia do carnaval e o amadorismo das artes, corrida de automóveis e estádio de futebol, em detrimento da educação, do teatro, da música de qualidade e da literatura, atividades que definitivamente fazem crescer as pessoas e reformam a vida e o mundo, esse governo está com os dias contados e nunca mais vai voltar. Pergunte a qualquer motorista de táxi ou professor ou policial se ele vai votar neles... A resposta é a que queremos ouvir.

Três infâncias é um livro de extrema sensibilidade. Que lugar ele ocupa em sua trajetória de ficcionista?

O lugar da liberdade e, ao mesmo tempo, do empenho autoral, pois duas das histórias, antípodas estruturalmente e no tom, no ritmo, demoraram anos em construção. Fui livre para criá-las e sempre um insatisfeito, imbuído em buscar o melhor para ambas. Neste sentido, “Dias de garoto”, que fecha o volume e que escrevi numa noite, é uma espécie de arremate feliz de uma intenção que chegou a um bom termo. E, por fim, as três histórias têm um débito com a poesia. São do gênero prosa, mas, para atingir o nível de sensibilidade a que você se refere, tive que fazer incursões poéticas.

E que livro você gostaria de ter escrito?

Gostaria de ter escrito O sol sobre tudo, um romance que planejei há anos e do qual só tenho anotações, capítulos inacabados, intenções rascunhadas, falas esparsas, personagens mal delineados, descrições que não me satisfazem, incongruências, vazios etc. Mas, como entendo que você quer que eu revele um livro de minha predileção que me honraria ter escrito, eu diria que gostaria de ter escrito um livro que mudasse a vida de uma pessoa, como O estrangeiro, de Camus. Mudou a minha.

Quando se é iniciante, todos os deslizes são perdoáveis. Qual o maior pecado que um escritor maduro pode cometer? Sendo extremamente criterioso com seu trabalho, que imperfeição literária você pode confessar e revelar aos seus leitores?

O maior pecado de um autor maduro ainda é a pressa. A não ser que ele escreva depressa por natureza e escreva bem, sem precisar se esforçar. Não podemos deixar que a internet dite o ritmo de nossas vidas, nem de nossa escrita. Uma coisa é o texto jornalístico ou do blogue, que informa, joga com a realidade, com o factual. Outra é a literatura, que precisa de ideias, de estrutura e estilo, de caráter literário e metáforas, seduzir os leitores tanto pelo assunto quanto pela forma, pelas imagens e pelos sentidos que suscita. Há contos, romances e poemas que leio não pelo que dizem, mas “como” dizem. O tema é irrelevante, apenas um pretexto para se exercitar a dança das palavras. Em suma, fazer literatura implica ultrapassar esta barreira, ir devagar, concentrado, e crer que o sucesso é fruto de vários aspectos, muitas vezes de arredor, fora do campo literário. Não gosto de incorrer em cacófatos, mas nem sempre conseguimos evitar, em português, os "ela tinha" ou os "alma minha". Nestes dois últimos livros, dois me escaparam. Paciência. Resignação. Trabalho para a nova edição e necessidade de mais atenção nos escritos futuros.

Depois de publicar pela CosacNaify por indicação de ninguém menos do que Raduan Nassar, por que outros livros seus não saíram pela mesma editora? Que avaliação você faz da receptividade de O inédito de Kafka, não era um livro para arrebatar crítica e público?

A editora começou a trilhar outro caminho, deixando um pouco de lado a literatura brasileira em favor dos clássicos universais. Também não me relacionei bem com eles, me neguei a ir a algumas bienais do livro, e não lutei, como em geral não luto, para divulgar o livro como devia. Na verdade, não sou bom em fazer propaganda do que escrevo. Meu blogue é sobre livros e filmes, não sobre mim. Mas acho que o grande problema mesmo foram os atritos que tive com o editor Rodrigo Lacerda. Ele é formado em história, acha que a linguagem literária tem que ser objetiva, e só. Ora, a objetividade da prosa é necessária, uma condição sine qua non, mas, a depender da história que se conta, cabe poesia, linguagem filosófica, jurídica, de rua, de jornal, familiar, piegas, sentimental ou qualquer outra. O bom escritor procura dosar estas linguagens e, de maneira funcional, desloca textos de um campo específico do conhecimento ou da realidade para o meio da literatura, produzindo resultados satisfatórios. E a linguagem literária não é do autor. Ele a muda a depender do que conta, e como conta, mesmo em primeira pessoa, ou sobretudo nesta condição, pois, ao usá-la, projeta outra pessoa. Meu conto “Diários da piscina” é representativo desta teoria. A lógica é a de uma garota adolescente, que obviamente não sou eu, que eu projetei. Portanto, a linguagem é a que ela utiliza no seu dia a dia. Tive muitos problemas com o Rodrigo, e tive de lhe ensinar o que é um hipérbato e mostrar por que, não raras vezes, ele é necessário até mesmo na prosa. A verdade é que hoje eu teria uma relação melhor com a CosacNaify, sou mais paciente, mas nem me ocorre enviar um livro para eles, nunca mais fiz isso, desde O inédito de Kafka. Eu me decepcionei, e acho que eles também. Grandes editoras são para escritores famosos, badalados e que almejam o mundo. Sou um escritor de alcance mais curto. Prefiro editoras pequenas.

Hemingway atacava Faulkner. Capote e Gore Vidal se odiavam. Até o pacato Jorge Amado saiu aos tapas com Carpeaux. O meio literário, como qualquer outro ambiente que mexe com o ego e a vaidade dos envolvidos, é muito suscetível a intrigas. Como você lida com a inveja e a crítica desonesta?

Procuro ignorá-las. O autor deve pensar no próximo livro, esquecer o que acabou de publicar e ficar alheio ao que falam sobre ele. E ainda mais hoje, que se fala sem conhecimento, por opinião e gosto, ou despeito, e que os críticos profissionais são mais raros que óvnis. Esta condição, aliás, acabou por acirrar a inveja e o ressentimento, pois são os escritores que escrevem sobre os livros dos outros escritores, e nem sempre conseguem ser imparciais e justos, tampouco admirar o que não foi escrito por eles. Por isso é melhor ler a obra pela obra, o que ela diz e como diz, sem exigir que fale o que nossa expectativa pretende ou sonha, e ignorando que existe um autor que a assina. Algo muito difícil, mas que procuro praticar. Provavelmente sem êxito.
 

 

Tom Correia é jornalista e escritor.